segunda-feira, 18 de abril de 2011

Credenciais e credibilidade

No estudo das negociações, há uma caracterização acadêmica dos atributos de um negociador, dentre os quais destacam-se suas credenciais e sua credibilidade.

Entende-se a credencial como o currículo do indivíduo, os cursos realizados, os projetos em que participou, etc. Um bom currículo pode impressionar num primeiro momento, mas não é o suficiente para firmar um componente fundamental nas relações humanas: a confiança.

A confiança resulta da credibilidade do indivíduo, o que é função do histórico de sua atuação, de seu cumprimento dos acordos que firmou e da coerência com seus pontos de vista, demonstrada ao longo do tempo.

Conheço alguns doutores de teses absurdas, movidos a ideologias e que tentam nos impressionar com um palavreado rebuscado e incompreensível. Via de regra, são indivíduos com respeitáveis credenciais, mas pouca credibilidade.

Não gosto de ler aquilo que não compreendo. Acredito que, quanto maior o grau acadêmico do sujeito, maior a sua obrigação de se fazer entender.

Contudo, mais importante do que textos claros e bem construídos ortograficamente, são as ideias neles contidas. E mais importante, ainda, é o comportamento das pessoas, que, no final das constas, é o que lhes confere credibilidade perante os outros.

O embate das ideias nunca pode servir para ofensas. Devemos respeitar os eventuais adversários e estar aberto para aceitar a opinião alheia. Quem está atento aos outros nos parecerá ser mais sincero e confiável.

Para terminar, como dizia uma antiga propaganda da Fiat, às vezes também é bom rever nossos próprios conceitos.

domingo, 17 de abril de 2011

Sacolinhas


Outro assunto, que não merece um plebiscito, mas também mexe nos nossos direitos é a tal da sacolinha plástica.

Eu sou fã dessas sacolinhas, que facilitam a nossa vida. Servem para colocar as compras do supermercado e, em casa, para embalar o lixo, para botar a roupa suja e mil e uma outras utilidades.

Só que as sacolinhas são de plástico e demoram muito para se degradar na natureza. Aí, ficam se acumulando nos lixões ou, o que é pior, entupindo os rios e lagos, causando danos à natureza.

Eu gosto muito da natureza, mas não gostaria de abrir mão das sacolinhas.

Não é o caso de plebiscito, repito, mas é que há um movimento que quer proibir as sacolinhas. Talvez ninguém queira mesmo a minha opinião, mas eu sou contra eliminar algo que facilita a vida de todos, mesmo em nome da natureza.

Muito melhor que acabar com elas, seria desenvolver uma sacola de plástico biodegradável, que carregasse as compras, acomodasse o lixo, servisse para botar roupa suja e cumprisse outras tantas e tantas utilidades.

Não seria ruim se essa sacolinha biodegradável custasse alguns centavos. Valeria pagar por elas.

Muito mais caro é proibir um artigo que tanto facilita a nossa vida. Mesmo com as melhores das intenções.

A tesoura

Ainda em relação aos plebiscitos e referendos, alguns argumentos devem ser levados em consideração.

Começo pelo referendo do desarmamento, de 2005. A proposta era para que todos os brasileiros, mesmo os honestos e obedientes às leis, fossem proibidos de adquirir armas.

Havia uma intensa pressão da mídia e das ONG. Parecia que o resultado no voto apenas confirmaria o que os políticos já haviam decidido intramuros. Para sua surpresa, o povo pensou diferente e votou contra a ideia de perder mais um direito.

O resultado daquele referendo parece ter servido de lição a muita gente. Tanto que outros temas, que também restringem nossa liberdade, dispensaram a consulta popular.

Eu obedeço à lei e não dirijo depois de beber. Aliás, nem gosto de beber muito. Mesmo assim, gostaria de poder jantar num restaurante com minha esposa, beber uma mísera taça de vinho e ter o direito de, depois, voltar dirigindo para minha casa. Um programinha de cidadão pacato.

No passado, fiz isso muitas e muitas vezes e nunca tive qualquer incidente no trânsito. Aí, veio a lei, que me proíbe de dirigir depois de ingerir qualquer quantidade, mesmo pequena, de álcool.

Não gosto da lei, mas a obedeço.

Os políticos decidiram por mim. Eles seguiram a pressão da inteligentzia e aprovaram a lei.

A medida é draconiana. Li e reli todos os argumentos da turma do álcool zero; vi os programas com os especialistas de sempre; todos com aquelas estatísticas terríveis e a musiquinha triste.

Citaram e recitaram todos os motivos. Mesmo assim, a lei do álcool zero não me convenceu. Gostava mais da anterior, que estabelecia a punição para quem ultrapassasse determinados níveis de álcool no sangue. Mas, disseram que era preciso mudá-la, que ela não era forte o suficiente para terminar com os acidentes, etc.

Ah, disseram que bastaria que a nova lei estabelecesse a tolerância zero para acabar com as mortes no trânsito. O problema, diziam, era a lei; e não a fiscalização. Teve gente que acreditou.

A nova lei pode até ter reduzido as estatísticas, mas ela me proíbe de levar a esposa de carro a um restaurante, me servir de uma mísera taça de vinho e voltar dirigindo para casa. Pode ter sido por uma boa causa, mas cassaram meu direito.

Eu também não gosto das consultas populares movidas aos casuísmos, mas acho a proposta do Alon Feuerwerker interessante. Por ele, os plebiscitos e referendos seriam feitos regularmente e incluídos na agenda política brasileira.

Para mim, seria essas consultas são uma oportunidade de perguntar aos cidadãos votantes, honestos e obedientes às leis se aceitam, ou não, maiores restrições aos seus direitos.

Acho que isso poderia refrear essa tesoura terrível que gosta tanto de cortar a nossa liberdade.

sábado, 16 de abril de 2011

China e Belo Monte


Para mim, China e Belo Monte são sintomas de um mesmo problema. O Brasil quer crescer e, para isso, precisa de energia e mercado.

Cansamos de ser o país do futuro. Estamos num bom momento econômico e social no presente e nos preocupamos quando qualquer marola possa estragar esse cenário. O pito da OEA serviu mais para mostrar o quem é quem na disputa entre o crescimento e a submissão.

De qualquer forma, é bom mesmo se precaver quanto aos movimentos alheios, principalmente na Amazônia.

No campo dos Direitos Humanos, não considero a China como exemplo para ninguém.  Para mim, os chineses submetem-se a condições precárias de vida e liberdade.

Mesmo assim, a China cresce, e muito. Os chineses prosperam e uma multidão sai da pobreza. Daí, o consumo aumenta, o mercado cresce e a economia se expande vigorosamente.

Será, então, que o sacrifício atual dos Direitos Humanos não é uma etapa necessária para que os homens e mulheres do futuro sejam mais ricos e respeitados?

É possível que um povo próspero submeta-se a imposições contra sua liberdade? Acho que não.

Considero que prosperidade e liberdade caminham juntas. Daí que talvez seja certo que o Brasil seja pragmático no presente, para que o excesso de zelo não estrague nosso futuro.


Armas e crucifixos

Os plebiscitos e referendos são um bom instrumento para medir a opinião do povo, mas devem ser usados com sabedoria.

O massacre da escola do Realengo matou doze crianças e feriu 190 milhões de brasileiros. Políticos de rapina aproveitam a dor alheia para ganhar algum espaço a mais nos holofotes. Daí, a proposta oportunista desse plebiscito do desarmamento.

O Alon Feuerwerker, que é um baita blogueiro, postou uma sugestão de se aproveitar esse plebiscito para que o povo decida, também, sobre outras questões, como o aborto, o rebaixamento da idade penal e a pena de morte.

O Alon acha salutar o exemplo da Suíça, que realiza regularmente essas consultas populares.

Eu considero que os plebiscitos e referendos poderiam ser realizados sempre por ocasião das eleições municipais. Seria interessante que eles incluíssem temas de interesse regional, tal como foi feito recentemente no Acre.

Nas últimas eleições presidenciais, os acreanos votaram, também, pelo retorno do antigo fuso horário de seu Estado, que o Governo Federal havia alterado.

Hoje, o Blog do Sakamoto comenta sobre o conservadorismo da Sociedade. Ora, isso é questão de valores, daquilo que as pessoas consideram importante na sua vida. Por exemplo, o Sakamoto defende que se retire os símbolos religiosos das repartições públicas. Ele possui um bom argumento para isso, já que a Lei determina que o Estado é laico.

Eu entendo que o Estado é laico, sim, mas as pessoas não. O crucifixo acima das mesas não significa a exposição de uma religião oficial, mas a religiosidade de um grupo bem numeroso de brasileiros.

Contudo, para se fazer respeitado, é preciso respeitar as opiniões e sentimentos alheios. Compreendo os símbolos religiosos nas repartições públicas, mas eles devem ser retirados em respeito a todas as religiões.

Do mesmo modo que se deve ouvir e compreender as minorias, é preciso aceitar a opinião da maioria dos brasileiros, que são muito ciosos de sua liberdade.

Estatísticas recentes mostram que há pouco menos de vinte milhões de armas no Brasil. Ora, isso significa que apenas pequena parcela de brasileiros possui armas. Mesmo assim, no referendo de 2005, 64% dos eleitores votou pela manutenção de seu direito em adquirir uma arma.

Talvez esse fato carregue algum ensinamento. O que alguns enxergam como conservadorismo pode ser apenas a manifestação de um sintoma: a defesa da própria liberdade.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Propaganda do Brasil

Onze anos atrás, numa noite fria em Lund, na Suécia, me vi diante de um poster que emoldurava a vitrine de uma agência de viagens. Nele, havia uma foto em que reconheci uma praia do nosso nordeste.

Tremendo de emoção e de frio, cheguei mais perto da vitrine. Eu conhecia a praia e, na foto, havia um barzinho com algumas mesas. Nelas, destacava-se o inconfundível logotipo da Cerveja Antártica. Procurei qualquer referência ao Brasil, mas que decepção! O poster com a foto da nossa praia estampava a propaganda de uma excursão para o Caribe.

Vendiam a praia do nosso Nordeste como um resort caribenho qualquer.

Tenho outra história sobre esse tema. 

Lembram do vídeo da época da Copa de 98, com aquela música do Skank? Falo daquele filme, com cenas de dribles no Maracanã, torcedores com a camisa do Cruzeiro, a multidão vibrando com gols. Lembram dele?

Pois, é. Eu estava no Oriente Médio e vi o mesmo vídeo, só que sem o Skank. Era propaganda inglesa, com música estrangeira, mostrando nossos torcedores e craques. Nela também não havia nenhuma referência ao Brasil.

Tudo isso foi há mais de dez anos, quando a imagem do Brasil era a de uma morena boazuda, na praia, com um biquini enfiado e de topless.

Faz muito tempo que eu não viajo, mas fico curioso. Qual será a atual imagem do Brasil?

Será que a foto da morena deu lugar a um campo de soja ou a um robô numa linha de montagem industrial?

Acho que não, mas tenho uma dica.

Para mim, a melhor propaganda do Brasil nos últimos tempos é um desenho animado.

O “Rio”, do Carlos Saldanha, é a história de um pássaro muito esperto, que mora nos Estados Unidos e vem para o Brasil com o único intuito de procriar-se com a última fêmea de sua espécie. Ou seja, ele também não foge ao estereótipo do americano que vem ao Rio de Janeiro em busca de sexo!

O curioso é que o pássaro vem com sua dona, uma moça americana, ruiva, com óculos enormes, que também encontra um namorado carioca.

O desenho mostra favelas, barracos, desfile de carnaval e traficantes de animais. Tudo numa boa.

O filme é engraçado e, depois da sessão, todos saímos de alto astral, com a sensação de que vivemos num país exótico e diferente; violento, mas também acolhedor.

Vem, então, a minha dica. Quem sabe numa próxima noite gelada em Lund eu não verei outro poster com foto de praia nordestina, mas dessa vez convidando os suecos a viajarem para o Brasil?
Isso seria mais do que uma propaganda. Seria uma prova de respeito.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Paz e amor

Outro dia, escrevi sobre o Meuzéis e a tábua dos dez mandamentos.
Na verdade, não precisava de dez ordens. Deus só precisava nos mandar respeitar o vizinho e, também, nos dar ao respeito.
No Novo Testamento, fico com o ensinamento do amar ao próximo, que bem sintetiza toda a doutrina cristã.
A Revolução Francesa difundiu os lemas da igualdade, liberdade e fraternidade. Muitos já mataram e morreram pelos dois primeiros, mas poucos prestam atenção no último.
Acreditem. É bom ser fraterno, amar ao próximo, respeitar e ser respeitado. São valores que tornam nossa existência mais suportável.
Infelizmente, muitos não dão o valor merecido a esses princípios de vida.