quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Mais ratoagem

Tem gente da estrelhinha se dizendo indignado com tanta roubalheira. Até a Dona Marta já deu no pira.
Pera lá, petralhinhas. Todo mundo sabia da roubalheira e vocês não se incomodaram em teclar o 1 e o 3  na urna eletrônica.
Quando os ratos começam a pular do navio é melhor mesmo agarrar um colete salva vidas. Tá certo que é questão de sobrevivência, mas nem faz um mês vocês estavam ovacionando a capitão dessa nau. Agora, aguentem e afundem com o navio que vocês nos fizeram embarcar.

Ratoagem

Fez bem a polícia em admitir o erro de ter citado José Carlos Cosenza entre os envolvidos no Petrolão.
Sim, fez bem a polícia, mas também fez mal, muito mal, em ter errado.
Tudo o que a pilantragem quer é desacreditar a investigação. Não basta que ela esteja correta; mas terá que ser absolutamente convincente. Afinal, depois do que se viu no julgamento do mensalão, será que ainda há alguém que acredite piamente na lisura de alguns dos togados do STF? Uma brecha processual, um furo que se deixe, logo se transformará num imenso rombo jurídico, por onde a ratoagem escapará impune.
Foi bom a polícia revelar logo o seu erro, mas, em nome dos brasileiros de bem, por favor, não errem mais.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Malvinas



        A pacífica transferência de soberania de Hong Kong para a China me faz pensar se os argentinos teriam conseguido algo semelhante com as Malvinas se tivessem insistido na via diplomática ao invés de invadir as ilhas em abril de 1982.
        Na época, o golpe de mão me parecia uma aposta vitoriosa, pois duvidava que a Inglaterra seria capaz de enviar sua esquadra e seus soldados para retomar o território invadido.
        Os ingleses agiram com firmeza, mas também muito cuidado para não escalar o conflito, o que traria consequencias desfavoráveis com seu principal aliado, os EUA.
        Os ingleses parecem ter sido também muito habilidosos no trato da questão de Hong Kong. Eu vi o episódio com atenção e, depois de tantos anos, a vida por ali parece bastante civilizada. Prova da paciência chinesa ao buscar seus objetivos. Essa mesma paciência faltou aos afoitos generais argentinos do início da década de 1980.

domingo, 21 de setembro de 2014

Escócia

Gostei do resultado do referendo na Escócia. Os tempos de William Wallace ficaram mesmo para trás. O líder escocês do século XIII revoltara-se contra a tirania inglesa. Ele foi morto, mas inspirou o sentimento de identidade de sua nação.
Escócia e Inglaterra foram inimigos por muito tempo, mas acabaram forjando a união britânica em 1707, mesmo com motivações diferentes. Os ingleses movidos por razões geopolíticas, os escoceses por razões econômicas.
É curioso, mas as preocupações geopolíticas e econômicas voltaram ao centro do debate nas campanhas do sim e do não. A separação trazia o perigo do enfraquecimento de todos. As urnas escocesas mostraram a força da identidade nacional britânica e a percepção de que as vantagens em pertencer à Grã Bretanha superam as promessas de prosperidade, meio vagas, dos que defendiam a independência.
Por fim, o bom senso venceu o referendo. A razão foi mais forte que a emoção.

sábado, 13 de setembro de 2014

Irã atômico

Pelo que tenho acompanhado, o Irã já domina a tecnologia de enriquecimento de urânio.
É claro que o programa nuclear iraniano tem outros propósitos além da produção de energia termoelétrica, mas, antes de condenar o regime dos iatolás, é preciso considerar alguns fatos.
O primeiro é que o entorno regional iraniano apresenta de um lado o Paquistão e a Índia, e do outro Israel, os três possuindo seus próprios artefatos nucleares.
O segundo é que é legítimo que um país busque o domínio de um setor tecnológico. O que não é legítimo é a obtenção da arma atômica, seja por aquisição ou por desenvolvimento próprio.
O domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio por si só já representa um poderoso elemento dissuasório contra eventuais ameaças.
Não percebo nenhum sinal de que o Irã já possua alguma arma atômica e, neste momento, um ataque contra as instalações nucleares iranianas seria catastrófico para as tentativas de estabilização regional.

Um leão por vez


Os EUA definiram sua  estratégia no Oriente Médio há muitos anos. Até a Primeira Guerra Mundial, toda aquela porção de terra do planeta era percebida apenas como a ligação entre o Egito e a Índia; depois da segunda guerra, como simples fornecedor de petróleo para os países desenvolvidos. 
Israel é um importante componente da equação geopolítica daquela região. As guerras de 67 e 73 conjugaram-se com o nacionalismo árabe da época e redundaram na crise do petróleo, que afetou as economias de todo mundo, e o terrorismo dos anos setenta, com atentados sangrentos e de viés esquerdista, alguns financiados e coordenados pela URSS.
A revolução teocrática iraniana de 79 é o marco temporal mais importante da contemporânea estratégia americana para o Oriente Médio. A partir dela, os EUA perseguem um grande objetivo de manter o status quo da região, buscando assegurar a consolidação do estado israelense, percebido como um quisto de democracia e prosperidade numa região dominana pelas oligarquias dos petrodólares.
É claro que nos 35 anos que seguiram ao domínio dos iatolás no Irã houve a ascenção e queda de Saddam Hussein, mas o ditador iraquiano deve ser compreendido como efeito, e não como causa, da instabilidade regional.
Obama continua perseguindo o grande objetivo estratégico americano, só que a fluidez dos acontecimentos no Oriente Médio o obriga a matar um leão a cada dia. Ele apenas vai matando aqueles leões que estão mais perto e isso causa alguma confusão.
 A morte de Osama Bin Laden e a retirada das tropas americanas no Iraque pareciam sinalizar um período inédito de estabilização regional, permitindo até que os EUA pudessem alterar o eixo de seus interesses estratégicos do Oriente Médio para a China. Contudo, o conflito na Síria e o fracasso do governo iraquiano em consolidar-se democraticamente obrigaram Obama a rever seus objetivos intermediários.
Por fim, ressalto que o Oriente Médio deixou de ser apenas um ponto de ligação entre o Egito e a Índia ou um mero supridor de petróleo. Nos últimos cinquenta anos, tem sido o foco das maiores preocupações mundiais. Não é lugar para amadores, mas para quem consiga matar os leões devoradores da paz.

sábado, 6 de setembro de 2014

Traspassados

Algumas observações.
- Na primeira grande guerra, soldados traspassados por tiros no abdômem gritavam por suas mães antes de morrer.
- Às vésperas do ataque a Pearl Harbour, o Comando da Marinha Imperial cogitou permitir a quebra do silêncio radiofônico pelas aeronaves que fossem abatidas. Os pilotos japoneses protestaram. A vida de um indivíduo pouco valia diante dos destinos do Império; que deixassem os abatidos morrer dignamente em silêncio.
- O povo americano se opôs à entrada de seu país na segunda grande guerra até que o trauma do ataque japonês o impeliu ao conflito.
- Os alemães, derrotados e humilhados em 1918, elegeram Hitler, abraçaram o nazismo e permitiram o holocausto.
- Europeus desempregados protestam por falta de perspectivas. A crise econômica leva seus governantes a cortarem drasticamente os gastos públicos.
- O povo russo se redescobre grande e poderoso e apóia Putin; a mãe Rússia não permitirá o expansionismo da OTAN em suas fronteiras.
- Depois de anos de campanha no Iraque e Afeganistão, os soldados americanos retornam à sua casa menos dispostos a aceitar novos conflitos. Bin Laden está morto e o 11 de setembro está cada vez mais longe no passado.
- No deserto do Iraque, um grupo radical sunita captura centenas de soldados inimigos, os humilha e executa impiedosamente.
A história não acabou. Ela resulta da ação dos governantes, que, em maior ou menor grau, realizam os anseios de seus povos. A crise na Ucrânia reflete os interesses e valores de sociedades diferentes e antagônicas. Eu me pergunto se o pensamento liberal e democrático poderá algum dia  prevalescer em todas partes do mundo. Os acontecimentos recentes gritam qu não.