sábado, 3 de agosto de 2013

Iraque

A Bibliex lançou o livro Mulher de Militar, de Dímia Fargon, que contém um belo relato dos dois anos que ela e o marido passaram em Bagdá, no início dos anos 80.  Li o testemunho da autora e confirmei o que já sabia, só que com um enfoque diferente, o de uma dona de casa vivendo no país de Saddam Hussein. 
No início dos anos 80, havia um grande contingente de brasileiros no Iraque. Destacavam-se empresas como a Avibras e a Engesa, que vendiam armamentos, a Volkswagen do Brasil  exportava para aquele país milhares de carros, e a centenhas de brasileiros viviam num acampamento da construtora Mendes Júnior próximo à região de conflito entre o Iraque e o Irã. 
Eu mesmo estive no Iraque em 1998 e pude constatar a excelência de suas rodovias e repartir as ruas de Bagdá repletas de Passat com seus parabrisas traseiros estampando um adesivo escrito "Made in Brazil".
A estreita ligação do Brasil com o Iraque derivou do choque do petróleo de 1973. Nossa economia foi fortemente abalada com as sucessivas altas daquele produto, forçadas pela OPEP como forma de castigar o ocidente pelo apoio a Israel.
Nossa diplomacia era mais destemida naquela época e estreitamos os laços com o Iraque. Havia um embargo contra aquele país, que nacionalizara a exploração de seu petróleo. 
Saddam Hussein queria desenvolver rapidamente seu país e projetar-se como grande líder no Oriente Médio. Para isso, associou-se ao Brasil, que precisava aliviar o imenso déficit na sua balança comercial devido à importação do petróleo. No final dos anos 70, o Brasil ,  tinha capacidade técnica para conduzir as obras de infraestrutura que o Iraque necessitava; possuía uma indústria de material bélico com produtos de boa qualidade; e, de quebra, conduzia um programa de desenvolvimento da tecnologia nuclear. 
Esse último aspecto foi o principal motivador da espionagem de americanos e israelenses em nosso país. 
De uma forma ou de outra, nosso pais continuou vinculado ao Irã e Iraque.
Em 2002, o diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas, o embaixador brasileiro José Bustani, sofreu um forte ataque dos EUA por causa de suas ações que buscavam convencer o Iraque a aderir àquela organização. Caso os iraquianos concordassem em receber inspetores daquela organização internacional, os americanos perderiam o principal argumento para a invasão daquele país no ano seguinte. 
O brasileiro José Bustani havia sido reeleito para o cargo em 2000, com apoio dos EUA. Dois anos depois, os americanos o retiraram do cargo sob alegação de incapacidade administrativa. 
Continuando a história, no final da década passada o presidente do Brasil, Lula, surpreendeu o mundo ao tentar, com seu congênere turco, uma solução para o problema do programa nuclear iraniano. A ação brasileira também sofreu forte ataque de americanos e israelenses.
O recente vazamento de informações de Edward Snowden mostra que, naquela ocasião, os EUA também espionaram o Brasil em busca de informações que fundamentassem a ação da diplomacia americana para impor sanções ao Irã.
Esses fatos devem ser divulgados para que nós brasileiros saibamos que não estamos tão distantes como julgamos estar dos principais conflitos internacionais, nem imunes a ações hostis de outros países. 





http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/122117-alvo-antigo.shtml

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Padre Beto, o diabo é vermelho!

Alguns poucos dias atrás, após uma histórica edição da Jornada Mundial da Juventude, o papa Chico se despediu do Brasil, A visita de Sua Santidade merece mesmo entrar nos  livros de história, tal o impacto causado e as lições que nos deixou.Logo na sua chegada, tive certeza que Deus é brasileiro. Só isso explicaria que aquela figura tão importante no cenário mundial tenha saído ilesa depois de ficar solta pelo Rio, a bordo de um carro popular, com as janelas abaixadas, parado num engarrafamento, beijando criancinhas e apertando as mãos do povo. 
É como se todos tivessem se esquecido do episódio da tentativa de assassinato do Papa João Paulo II pelo terrorista turco Ali Agca, mais de trinta anos atrás.
Mas, hoje meu assunto é outro e tem a ver com a entrevista do papa, já no avião que o levava de volta ao Vaticano. Francisco surpreendeu o mundo ao dizer-se 
incapaz de julgar um homossexual que tenha boa vontade e busque a Deus. 
A afirmação do papa tem sido extensamente divulgada, com ampla repercussão e abordagens predominantemente favoráveis na mídia.
Neste ponto, remeto o leitor a um episódio recente no Brasil envolvendo outra figura religiosa. Tratarei do caso do Padre Beto.
Para quem não sabe, o Padre Beto se chama Roberto Francisco Daniel, tem 48 anos e foi excomungado pela Diocese de Bauru em  abril deste ano.
O desligamento de um padre pela Igreja Católica Romana é um ato de extrema gravidade e o titular da diocese, Bispo com Caetano Ferrari, justificou a punição,
atribuindo-a ás opiniões expressas pelo padre em redes sociais sobre a postura da igreja sobre temas como bissexualidade, amor entre pessoas do mesmo sexo e fidelidade conjugal. Resumindo, o padre teria ferido a doutrina da Igreja que jurou servir no dia de sua ordenação.
O padre Beto resolveu recorrer à Justiça para reverter o processo de expulsão da Igreja e contratou três advogados que entraram com um pedido de liminar contra a decisão da diocese. 
Ontem, vi o Padre Beto na televisão. Ele aproveitou a frase do papa para, mais uma vez, acusar a Igreja de homofóbica, pois, embora tolere a presença dos  
homossexuais em seu meio, ela não aceitaria que eles manifestassem sua homossexualidade. Para o Padre Beto, isso é homofobia.
Cabe, então, uma reflexão sobre essa acusação. 
A Igreja Católica Romana é uma instituição milenar, espalhada por todo o mundo, com mais de um bilhão de fieis. Não é exagero afirmar que os milhares e milhares 
de padres são figuras fundamentais para a sustentação de toda essa estrutura. Deles depende a transmissão dos valores e ensinamentos religiosos. 
Por isso mesmo, espera-se que os padres procedam de acordo com os princípios da Igreja. Trocando em miúdos, o exercício do sacerdócio vincula-se a uma ética. 
Quando o padre Beto se refere à aceitação da homossexualidade, certamente seu entendimento não se restringe ao sexo, mas a outras manifestações de comportamento. O problema é que o comportamento homossexual em público foge ao que se espera de um sacerdote.
Para reforçar meu argumento, não me limitarei à homossexualidade. Imaginem o que ocorreria se um padre que goste de música punk resolvesse usar um corte moicano no seu cabelo, tatuar e usar piercings em todo seu corpo. Será que a figura desse padre seria compatível com o que se espera dele? Acredito que não.
A Igreja, como toda e qualquer organização humana, impõe normas de comportamento a seus membros. Quem pertence à instituição deve ter a humildade de seguí-las. 
O padre pode, sim, ser homossexual, mas não pode transbordar sua homossexualidade de modo que interfira ao exercício de seu sacerdócio. Isso por respeito à Igreja e aos fieis que a seguem.  
A reportagem que assisti ontem apresentou um extrato do currículo do Padre Beto. Sua experiência acadêmica impressiona e inclui diversos cursos de graduação e pós-graduação, no Brasil e no exterior, inclusive em áreas relacionadas à ética. O mínimo que se pode dizer do Padre Beto é que ele é um homem preparado, que bem sabe o que está fazendo e os riscos que assumiu ao insistir nos atos que levaram à sua excomunhão. 
Os valores que Padre Beto defende enfraquecem à Igreja e servem para o esgarçamento da sociedade. Eles se harmonizam com a estratégia de Gramsci para a tomada do poder e a imposição de uma ditadura no Brasil.
Mas isso o Padre Beto sabe muito bem. Tenho certeza que ele já ouviu dizer que o diabo é vermelho.
 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Soldados invisíveis

Hoje, o Valor Econômico traz um artigo de Cláudio Gonçalves Couto que trata sobre a qualidade do Estado. Após informar que índice de confiança das Forças Armadas atingia a 71%, o articulista comenta que de nada adiante confiar em instituições desaparelhadas, sucateadas e que não conseguem cumprir a contento as suas tarefas. Para ele, a população apenas confia nas Forças Armadas porque não tem instrumentos para aferir cotidianamente o seu mal funcionamento, da mesma forma como consegue fazer com o transporte, a saúde, a educação, a polícia ou a conduta dos políticos.
Curiosamente, o artigo foi publicado no mesmo dia em que se anuncia mais um expressivo corte do orçamento da Defesa.  Esse fato reforça a percepção da insuficiência de recursos das Forças, que, por isso, não conseguiriam cumprir suas missões a contento. Contudo, o trecho que mais incomoda é o que associa a confiança da população nas Forças Armadas a uma suposta incapacidade de aferir a eficiência de seu funcionamento. 
Será que isso é mesmo verdade? Acho que não.
Começo meu argumento pela porta de entrada das instituições militares, ou seja, trato primeiro da educação. Os alunos das escolas militares destacam-se pelo seu desempenho acadêmico. É verdade que o Estado investe valiosos recursos financeiros na formação e aperfeiçoamento do pessoal militar, mas o dinheiro não é, nem de longe, o principal componente dessa equação. 
O principal motivo para a boa educação militar é a seriedade em que esse assunto é tratado. Não há greves nas escolas militares, os alunos se esforçam para atingir os parâmetros estabelecidos porque sabem que seu futuro profissional depende de seu desempenho escolar. 
Depois de passar pela porta de entrada das Forças Armadas, entro nos quartéis. Espalhados por todo o Brasil, a caserna é, invariavelmente, um lugar bem cuidado, onde cada real tem que ser muito bem aplicado, porque sobram problemas a resolver e faltam recursos para isso. Os comandantes são, antes de tudo, gestores de suas unidades, preocupados com todos os aspectos que envolvem seus subordinados. 
O homem é o centro das preocupações. A cada ano, milhares de famílias brasileiras emprestam seus filhos ao Estado, para o cumprimento da obrigação do serviço militar. Por imposição legal, há restrições quanto aos tamanhos das Forças, que há várias décadas permanecem com o mesmo efetivo. Por isso, apenas um em cada dez jovens alistados cumprirá o serviço militar, que na prática deixou de ser obrigatório, pois são quase todos voluntários.
Quem disse que a população não tem capacidade de aferir o funcionamento das Forças?
Pois bem, os jovens recrutas jovens assistem a tudo o que se passa dentro dos quartéis. Lembro que a juventude é muito crítica e os soldados contam para sua família as suas impressões pessoais, principalmente quanto ao comportamento de seus superiores. 
Esse é o principal termômetro do funcionamento das instituições militares.
Sigo meu passeio e chego aos órgãos de direção das Forças Armadas, encarregados de planejar e manter o bom funcionamento das Instituições, ao mesmo tempo em que buscam o aperfeiçoamento constante de materiais e métodos. Para isso, aplicam eficientes técnicas de gestão, tratam todos os assuntos com seriedade, preocupam-se com metas e prazos, buscam soluções para todos os desafios que se apresentam.
Mesmo com todas as dificuldades, discordo do articulista quando ele diz que as missões não são cumpridas a contento. O que tenho vivenciado é justamente o contrário e,  pelo que se constata, compartilho a mesma percepção que a da maioria dos brasileiros. 
Saio das Forças e entro no reino das percepções. Nele, constato que a confiança da população nas Forças Armadas se deve ao comportamento sério, fundamentado em bons princípios, por gente comprometida com a bandeira do Brasil que leva grudada na manga do uniforme que veste.
Isso é mais do que nacionalismo. É a ética militar.
Diferente de outras profissões, o militar chega na porta da caserna vindo de todos os segmentos da sociedade, principalmente dos extratos menos favorecidos economicamente. Acrescento que expressiva parcela dos oficiais é composta por  filhos de sargentos. Acredito que o articulista não saiba quanto ganha um oficial e, muito menos, um sargento. Quem vem de baixo sabe que é preciso ser realista para construir o edifício do progresso.
Por isso, afirmo que a população sabe, sim, discernir que as Forças merecem sua confiança. Os brasileiros confiam nos militares porque percebem que eles sempre agem quando preciso,  não fogem à luta, por mais difícil que seja, fundamentam suas ações em sólidos princípios morais e se afastam das ilusões do populismo fácil e vazio. 
O articulista foi injusto na sua análise e me parece que não consegue enxergar o trabalho dos militares. Talvez seja isso mesmo, pois, como acontece no combate moderno, nossos soldados vestem o camuflado para agirem invisíveis em todos os campos de batalha.

Joselito Müller

Ontem, descobri o site do Joselito Müller e desde logo percebi que seus textos bem humorados nos fazem rir primeiro e pensar depois. Isso porque a ironia é uma arma poderosa contra tantos abusos que temos suportado. Do seu modo, o autor nos entrega uma mensagem moral, disfarçada em textos tão absurdos que só podem ser mentira. O inusitado é que aquelas mentiras irônicas se parecem demais com outras tantas propostas de transformação social que violentam o bom senso. Nas trincheiras do pensamento, há um movimento pernicioso fabricando novas verdades, demolindo as bases da sociedade e aplainando o terreno para a construção de uma ditadura. Enquanto as mentiras de Joselito me fazem rir e pensar, as novas verdades pré-fabricadas matam o livre pensamento e não têm graça nenhuma.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O que querem os índios - Revista Veja, Edição 2295, de nov 2012


A reportagem mostra que a atuação dos marxistas do CIMI consegue desvirtuar a realidade indígena, criando uma mentira para dividir nossa sociedade.  Essa atitude faz parte da estratégia gramciana para a tomada do poder.



O que querem os índios
Sociedade
A mais completa pesquisa de opinião já realizada nas aldeias brasileiras revela como os índios vivem e o que eles esperam do futuro. A maioria quer progredir socialmente, mas ainda depende do governo para sobreviver
Leonardo Coutinho
Uma das principais reclamações dos índios é a de não serem ouvidos. De tempos em tempos, eles tingem o corpo de vermelho e negro em sinal de guerra e saem a brandir suas bordunas, arcos e flechas em frente a representantes do governo para chamar atenção para suas reivindicações. Na maioria das vezes, a sociedade brasileira só fica sabendo de suas demandas por meio de intermediários - padres marxistas ou ongueiros que fazem com que os moradores das cidades acreditem que os problemas indígenas consistem em falta de terras e em obras de infraestrutura nocivas ao ambiente. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha a pedido da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pôs fim a essa lacuna. É o mais completo levantamento das opiniões dos índios brasileiros já realizado. Durante 55 dias, os pesquisadores visitaram 32 aldeias em todas as regiões do país e entrevistaram 1222 índios de vinte etnias. Trata-se de uma amostra robusta maior, proporcionalmente, do que a que costuma ser usada nas sondagens eleitorais. As respostas revelam que os índios têm aspirações semelhantes às da nova classe média nacional, ou seja, querem progredir socialmente por meio do trabalho e dos estudos. Eles sonham com os mesmos bens de consumo e confortos da vida moderna, sem deixar de valorizar sua cultura. Muito do que é apresentado pelos intermediários da causa indígena como prioridade nem sequer aparece na lista das preocupações cotidianas dos entrevistados. "A pesquisa libertará os índios da sua falsa imagem de anacronismo", diz a presidente da CNA, a senadora Kátia Abreu (PSD/TO). Nove em cada dez índios acham melhor morar em casa de alvenaria do que numa maloca. Oito em cada dez consideram muito importante ter um banheiro sob o teto em que vivem, um conforto desfrutado por uma minoria. Quase metade dos indígenas adoraria tomar uma ducha quentinha todos os dias. O grupo de índios donos de automóveis é seis vezes a média dos brasileiros de classes C e D. "Ninguém deixa de ser índio por querer viver bem. É inaceitável que as regras de como devemos ser continuem sendo ditadas de cima para baixo sem levar em consideração a nossa vontade", diz Antonio Marcos Apurinã, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, que representa 160 etnias. Segundo Apurinã, por causa da falta de condições adequadas nas áreas demarcadas, muitas aldeias passam por um êxodo sem precedentes. Há quatro anos, 12500 índios viviam na periferia de Manaus. Hoje, estima-se que mais de 30000 vivam apinhados em construções precárias na cidade. Se a criação de reservas é alardeada como a demanda mais urgente dos povos indígenas, por que eles as estão abandonando para viver em favelas? Com a palavra, os índios. O problema mais citado é a precariedade dos serviços de saúde. Eles se queixam principalmente da falta de medicamentos farmacêuticos (que eles valorizam tanto quanto os remédios tradicionais) e de médicos. Em segundo lugar está a falta de emprego. "Nós não vivemos mais como nos meus tempos de infância. A nova geração compreende a vantagem de ter um emprego, uma renda. Ela quer ter roupa de homem branco, celular e essas coisas de gente jovem. Os governantes precisam aprender que nossos filhos querem ter tudo que os filhos do homem branco têm. Falar português, ir para a universidade e ser reconhecidos como brasileiros e índios", diz o cacique Megaron Txucarramãe, um dos mais respeitados líderes caiapós, de Mato Grosso. A questão fundiária é um tema marginal. Quando instados a falar sobre seus problemas individuais, os entrevistados nem sequer citaram a criação ou a ampliação de reservas. O assunto só ganhou relevância quando aplicado aos índios em geral. Nesse caso, a demarcação de áreas é o segundo problema mais mencionado, depois de saúde. Isso significa que, quando pensam nos outros índios, os entrevistados são tão influenciados pela campanha a favor da demarcação de reservas como o restante da população. Ao avaliarem sua situação pessoal, porém, apontam outras prioridades. "Quando nos fazem acreditar que precisamos de mais reservas, os problemas mais urgentes são esquecidos", diz o índio macuxi Jonas Marcolino, de Roraima, formado em matemática e estudante de direito. É claro que, quando questionados se gostariam de ter mais terras, a maioria dos índios entrevistados disse que sim. Se a pergunta fosse feita a um fazendeiro, qual seria a resposta? A mesma, evidentemente. O sociólogo Bernardo Sorj, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que, ao conviverem com o resto da sociedade, é inevitável que os povos indígenas absorvam valores e expectativas da cultura nacional e aspirem aos mesmos direitos. "Trata-se de um processo de transformação crivado de tensões que exige dos índios um esforço para aliar a tradição à modernidade. Cabem aos demais brasileiros compreensão, respeito e apoio para que eles façam essa síntese, que será sempre instável, entre a ancestralidade e a vida moderna", diz Sorj. Missionários e militantes que tentam resumir a questão indígena à expansão das reservas, anotem: o que os índios mais querem é saúde, emprego e saneamento.
O sonho da modernidade A pesquisa do Datafolha encomendada pela CNA mostra que os índios aspiram às mesmas conquistas materiais e sociais almejadas pela maioria dos brasileiros. Para eles, não há contradição entre a identidade indígena e os confortos e desafios da vida moderna, o que inclui trabalhar e estudar como qualquer outra pessoa. Eles querem cidadania plena e não desejam viver como os antepassados viviam cinco séculos atrás. Foram entrevistados 1222 moradores de 32 aldeias indígenas em todas as regiões do país.

Produção de grãos e bovinos predomina na ocupação da Amazônia

O Epoch Times publicou em 22 de março a notícia transcrita a seguir e que critica a expansão da agropecuária na Amazônia. Faltou dizer que a população de Manaus praticamente dobrou de tamanho nos últimos vinte anos. O que o periodista quer? Que a população morra de fome? Ou será que ele acredita que a produção tradicional de mandioca em pequenas propriedades seria suficiente para alimentar quase dois milhões de habitantes?


Notícia veiculada em http://www.epochtimes.com.br/producao-de-graos-e-bovinos-predomina-ocupacao-da-amazonia/

"Estudo divulgado nesta quinta-feira (21) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que a maior taxa de crescimento das atividades de ocupação da Amazônia brasileira entre 1995 e 2006 foi para produção de grãos e bovinos.

O estudo teve como objetivo geral caracterizar as principais mudanças ocorridas no padrão de produção agrícola, pecuária e extrativista na região amazônica.

As médias superiores de expansão e crescimento agropecuário em relação à média nacional contextualiza a Amazônia brasileira “como uma frente de expansão das atividades agrícolas, com destaque para a produção de grãos (soja e milho)”, revela.

O estudo apontou crescimento de 50% do rebanho bovino no período de 1995 a 2006, o que resulta em aumento de 21 milhões de animais. Os grãos aumentaram 141% em relação à média nacional, com destaque para aumento de produção de soja.

Segundo o estudo, esse crescimento foi direcionado e concentrado em propriedades de larga escala, em substituição das pequenas propriedades e atividades tradicionais. “A expansão da área de pastagem e de produção de grãos em larga escala desarticula arranjos produtivos tradicionalmente constituídos por agricultores e extrativistas, seja pela expropriação territorial ou pela desarticulação das configurações produtivas”, complementa.

“As atividades que mais contribuíram para este crescimento foram: soja, que passou de 1,8 para 4,3 milhões de ha; milho, de 1,1 milhão para 1,6 milhão de ha; mandioca, de 397 mil para 881 mil ha; e algodão, de 38 mil para 414 mil ha”, evidencia o estudo. Em contraponto, a cultura de arroz apresentou uma pequena redução no período. Os estados que mais contribuíram para este crescimento foi Mato Grosso, Maranhão e Pará.

Amazônia o “estoque de terra”

O estudo aponta fatores explicativos para o aumento de atividades agropecuárias na região. Mesmo com as deficientes características da Amazônia – grandes distâncias dos centros de consumo e de exportação e deficiência de infraestrutura de transportes -, os baixos preços da terra compensam a expansão na região amazônica em relação às demais regiões produtoras do país, explica o estudo.

“A Amazônia é depositária de um grande “estoque de terra” que vem sendo ocupado por empreendimentos agropecuários nos últimos anos, potencializando o chamado agronegócio exportador”, explica. É justamente esse argumento que torna “invisível” as formas tradicionais de ocupação, favorecendo a expropriação dos territórios tradicionalmente ocupados, revela.

“O elevado valor bruto da produção destas lavouras, bem como a mobilização de poder político a elas associado, têm alterado profundamente a dinâmica econômica da região, com a criação de infraestrutura, formação de novas cidades e implantação de complexos agroindustriais. Por sua vez, ocorre um relativo enfraquecimento das formas familiares de produção, seguido de uma forte concentração e centralização dos ativos fundiários e dos bens de capital”, explica a pesquisa.

Outros fatores apontados pelo estudo para o aumento da produção de grãos e bovinos na Amazônia foi o crescimento do mercado de exportação de carne e soja, a implantação de infraestrutura de estradas e de armazenamento, o desenvolvimento de pesquisas e as políticas públicas de crédito rural.

O estudo baseou-se no Censo Agropecuário 2006 do subprojeto denominado ‘Caracterização e análise da dinâmica da produção agropecuária na Amazônia brasileira’, coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em cooperação com o Ipea. Para ter acesso à pesquisa completa, clique aqui.  Confira também outros estudos divulgados pelo Ipea."

Rejeitar o arado empunhando a espada - por Leonan dos Santos Guimarães


PUBLICADO PELO CORREIO BRASILIENSE EM 25 DE MARÇO DE 2013


Leonam dos Santos Guimarães
Doutor em engenharia e membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea)
Cinco países são reconhecidos internacionalmente como "estados dotados de armas nucleares". Possuem as armas por direito concedido pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP): EUA, Reino Unido, França, China e Rússia. Entretanto, outros Estados têm essas armas de fato, não de direto.
Três deles, não signatários do TNP, declararam formalmente e demonstraram na prática, mediante testes nucleares, possuí-las: Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Apesar de nunca ter declarado nem demonstrado diretamente, parece não haver dúvidas de que Israel, que não é signatária do TNP, também as tem.
A África do Sul, quando ainda não tinha aderido ao TNP, as teve, mas decidiu desmontá-las voluntariamente. A Ucrânia armazenou artefatos nucleares em seu território, mas eles foram totalmente repatriados para a Rússia por meio de acordo depois do desaparecimento da URSS. Nos dias de hoje, o Irã é acusado pela comunidade internacional de estar buscando obtê-las, o que vem sendo tratado como grande ameaça à paz mundial.
Mas o que dizer dos cinco países europeus que têm no território armas nucleares de origem americana "não declaradas", incluindo Bélgica, Alemanha, Turquia, Holanda e Itália? Será que eles não constituem ameaça? A existência das armas, incluindo os procedimentos e meios operativos para seu emprego, é formalmente reconhecida pela Otan.
Os EUA têm cerca de 480 armas termonucleares B61 nos cinco "Estados não dotados de armas nucleares" e desenvolve programa de modernização delas. Sua existência é ignorada pela Aiea — organismo técnico internacional com delegação da ONU para verificar o cumprimento dos compromissos assumidos pelos países que aderiram ao TNP. Entre os cinco "estados nucleares não declarados", a Alemanha é o mais armado. A força aérea alemã tem três bases que podem armazenar até 150 armas e operar aviões alemães Tornado, capazes de lançar ogivas nucleares.
A que se destina a instalação e acumulação de armas táticas B61 nessas cinco nações? Quais seriam os potenciais alvos das armas? Dadas as características técnicas operacionais, elas somente poderiam ser empregadas contra alvos na Rússia e Leste Europeu ou no Oriente Médio e Norte da África.
O fato implica muitas contradições, casos típicos de dois pesos, uma medida. A primeira delas é que, enquanto alguns desses países acusam o Irã de buscá-las, eles próprios têm capacidade de atacá-lo com as mesmas armas. A segunda é que três dos cinco países, Alemanha, Itália e Bélgica, decidiram abandonar o uso pacífico da energia nuclear, que é a geração elétrica, sob a justificativa dos "riscos elevados", mas nenhum decidiu devolver as armas aos EUA, como fez a Ucrânia à Rússia. Será que as usinas nucleares são risco maior do que as bombas atômicas? A classe política e a sociedade parecem pensar que sim.
A Alemanha é o caso mais emblemático da contradição: não é uma potência nuclear "de direito" pelo TNP, mas estoca armas nucleares fabricadas nos EUA e sua força aérea tem capacidade própria de lançá-las. A empresa Eads, controlada pelo poderoso Grupo Daimler, é o fornecedor para a França do míssil balístico M51, capaz de lançar ogivas nucleares de submarinos. O estaleiro alemão HDW é o fornecedor para Israel de submarinos capazes de lançar mísseis com armas nucleares.
Ao mesmo tempo, a Alemanha decidiu descomissionar o seu parque de geração elétrica nuclear, na esteira do acidente de Fukushima. Isso tem implicado aumento na geração de gases efeito estufa, afetando todo o mundo, e em grandes custos para o país, a serem arcados pela sociedade. Rejeitam o arado e abraçam a espada.