sábado, 11 de fevereiro de 2012

Salário


As greves de policiais militares têm servido para evidenciar a precária situação salarial de diversas categorias profissionais no Brasil. Pior que receber uma remuneração insuficiente é verificar a generosidade do governo em atender aos pleitos de outros grupos com maior força de barganha, nem sempre atendendo ao critério do mérito.

Os militares constituem um grupo relativamente numeroso. Considerando apenas os membros das Forças Armadas, na ativa ou na inatividade, bem como pensionistas, seu contingente alcança aos 750 mil integrantes. Esse número, embora expressivo, esconde o fato de que esse grupo está disperso territorialmente, o que diminui sua força política.

Contudo, nós, militares, pensamos e nos comportamos de um modo relativamente igual. Além disso, nosso grupo representa bem os diferentes extratos sociais de nosso país. Desde meados do século XIX, quando o Brigadeiro Manoel Felizardo adotou o critério do merecimento para o ingresso e progressão na carreira militar, que a maioria de nossos oficiais passou a ser menos de “filhos de” e mais de “filhos da”. Ou seja, as Forças Armadas tornaram-se reduto da classe média brasileira.

O resultado disso é que somos majoritariamente conservadores, no sentido de que apreciamos a ordem, respeitamos as normas jurídicas e valorizamos a família e a vida em sociedade. Não somos individualistas, mas valorizamos o mérito individual. Este último aspecto é pouco percebido pelos governantes.

Em resumo, o que mais nos dói não é propriamente a remuneração insuficiente, mas a generosidade do governo em conceder altos salários para quem merece menos que aqueles que realmente se sacrificam pelo país.

É um descalabro verificar que o mesmo governo que nega um salário digno para seus soldados escancara seus cofres para certos magistrados que percebem valores realmente astronômicos. Há relatos de juízes recebendo mais de 400 mil reais por mês, isso a despeito de todas as normas legais proibindo que se receba no serviço público mais que os ministros do STF.

Nós, militares somos disciplinados e obedientes, mas nossa paciência tem limites e, por formação, não podemos continuar tolerando tantas injustiças. Na ativa, somos impedidos de nos manifestar sobre assuntos políticos e militares. Esse impedimento, embora muito sábio, nos restringe a capacidade de defender nossos interesses. Por sermos uma carreira de Estado, é inegável que cabe aos governantes zelar pelo bem estar dos soldados.

Infelizmente, não é isso o que se percebe. Para modificar essa situação, temos que agir coordenadamente, numa estratégia que atenda inflexivelmente às condicionantes do respeito à lei e à ordem. A força do militar está justamente na sua disciplina e amor à Pátria. Sem isso, não seremos diferentes dos oportunistas que se alimentam da corrupção e da mentira.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

EU FUI!!!

Os anos 80 foram década dos meus vinte anos e eu assisti o surgimento de quase todas as grandes bandas. 

Morava na Praia Vermelha e, a partir de 1983, subia no bondinho do Morro da Urca  fim de semana sim, outro fim de semana também, para testemunhar as estréias de grupos então quase desconhecidos, como Legião Urbana, Paralamas, Barão Vermelho e Kid Abelha.

Isso para falar dos nacionais. The Police, Alphaville, New Order, Eurythmics e tantas outros também faziam parte do meu repertório.


Eu ouvia muita música, mas só em 1988 é que pude comprar um carro com toca fitas. Daí, então, passei a escutar diariamente o Duran Duran, Dire Straits, Talking Heads e The Smiths.


Tempos bons aqueles, mas, mesmo com todo esse repertório, fui fiel ao Led Zeppellin até gastar o vinil dos meus bolachões.


Por fim, sabe o primeiro Rock in Rio, aquele de 1985? Pois é, EU FUI!!!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Respeito


Sempre tive muito claro a importância de se respeitar os mais velhos. Quando era aspirante, dedicava especial deferência a dois militares de minha companhia, um primeiro-sargento e um subtenente. Pela hierarquia, eu era mais antigo que ambos, que, entretanto, eram da mesma geração de meu pai.
Não era apenas uma questão de mais ou menos anos de idade. Por serem mais experientes, eles controlavam seus impulsos e mantinham sua compostura. Eram muito corretos, dedicados e disciplinados. Por isso, eu, na época um aspirante de vinte e um anos, me espelhava em sua conduta para me corrigir nas inúmeras besteiras que cometia. Eu era impetuoso demais e sábio de menos.
A recente greve da PM da Bahia me fez lembrar daqueles dois militares. Jamais os vi reclamar de seus superiores ou cometer uma transgressão pequena que fosse. E sei que ambos viviam com muita dificuldade.
No Exército, não há quem ganhe pior que os primeiro-sargentos e os subtenentes. Em geral, eles contam com mais de vinte anos de carreira, têm filhos na universidade e uma pesada carga para o sustento de sua família. Pela sua experiência e responsabilidade, esses profissionais são muito mal remunerados.
No mesmo quartel, havia um outro primeiro-sargento que uma vez me causou um grande problema. Estávamos de serviço e ele apareceu na revista do recolher com fortes sintomas de embriaguês. Esperei a formatura terminar para admoestá-lo e recolhê-lo ao seu alojamento. Quis me enfrentar, mas me mantive firme e, como resultado do inevitável processo disciplinar, ele foi punido. Depois, soube que ele havia sido um bom militar até que problemas pessoais o levaram ao alcoolismo.
Certamente, aquela situação de meados da década de 1980 se repete vinte e tantos anos depois nos tantos quartéis deste País.  A profissão militar não é fácil e a remuneração insuficiente certamente é um fator agravante para quem não tem forças para enfrentar os problemas da vida. Diante disso, alguns recorrem ao álcool, às drogas ou simplesmente desabam.
Felizmente, quando lembro dos meus tempos de aspirante, visualizo o primeiro-sargento e o subtenente de minha companhia, homens corretos e profissionais exemplares. Até hoje, já coronel, menos impetuoso e mais sábio, tento ser tão bom como aqueles dois.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Greve na PM

Dentre as notícias do dia, destacam-se as que tratam da greve de integrantes da Polícia Militar da Bahia. Há quem afirme que esse movimento não se restringe àquele estado, mas que que brevemente se repetiria em outras unidades da Federação. Sua finalidade seria forçar o estabelecimento de um piso salarial para as Polícias Militares em todo País, conforme o previsto na PEC 300, em discussão no Congresso Nacional.
A greve dos policiais é muito grave. A população baiana sofre com a falta de policiamento, com aumento expressivo no número de crimes. O fato provoca discussões que ultrapassam reivindicações de cunho salarial e alcançam outros aspectos da profissão militar.
Rodrigo Pimentel, ex-capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, reclamou ontem, no Bom Dia Brasil, que a proibição de sindicalização dos militares lhes impediria melhores condições de negociação salarial, ao mesmo tempo em que favoreceria aos que propõem medidas radicais para forçar aos governos o atendimento de suas reivindicações.
Eu considero inapropriado o argumento do ex-capitão e sou contra a sindicalização de militares. Como exemplo, cito um líder do movimento grevista que afirmou que repudia os regulamentos militares e não aceita que um policial seja punido por deixar de fazer uma continência.
Para mim, quem reclama pela obrigação de saudar seus superiores demonstra pouco apreço pelos princípios da hierarquia e disciplina, que são basilares na estrutura das instituições militares. Essa mesma falta de apreço ficou evidente em outra situação recente, quando militares do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro invadiram um quartel de sua corporação durante uma greve.
Assim como os militares estaduais, os integrantes das Forças Armadas também sofrem problemas salariais, que se destacam ao se observar a absurda desproporção entre a remuneração dos militares e de seus congêneres no serviço público. Esse problema tem se agravado ao longo dos anos e há uma percepção de que os governos não têm tratado este assunto com a devida consideração.
Os governos estaduais têm optado em anistiar os revoltosos e em não resolver os problemas salariais, o que enfraquece a autoridade dos comandantes das corporações. É evidente que se deve prover salários compatíveis aos militares ao mesmo tempo em que se reforça a estrutura de comando. Também fica claro que as instituições militares devem permanecer fora do alcance das disputas político- partidárias.
Quartel não é lugar de política, tampouco de sindicatos. Os regulamentos militares sobre o assunto são sábios e devem ser obedecidos. Cada militar é diretamente responsável por manter os princípios da hierarquia e disciplina e zelar pelo bem da sua Instituição.
Até o momento, não se vislumbra um desfecho para a greve da Polícia Militar da Bahia. Esta situação ultrapassa o aspecto financeiro e pode ter repercussões muito mais amplas, afetando a própria capacidade de comandamento das instituições militares, com desdobramentos para a segurança pública e a defesa do País.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Missing

Acabo de rever um filme de 30 anos atrás. O missing, do diretor  Costa-Gravas, tem o  Jack Lemmon representando o pai de Charles Horman, um estadunidense que foi morto durante o golpe militar de 1973, no Chile. Trato do filme por que ele tem a ver com a Comissão da Verdade. 

O grego Costa-Gravas estudou na Sorbonne e é um expoente do cinema político, com especial ênfase em denunciar abusos de ditaduras militares. O Missing faz uma série de ilações. Uma delas é que brasileiros ajudaram os chilenos a exterminar esquerdistas. Isso está claro numa das cenas do filme, em que um sujeito de terno e gravata e falando português orienta militares chilenos, em pleno Estádio Nacional, como proceder em interrogatórios. 

Esse papo de brasileiro metido em golpe militar do Chile é uma grossa mentira. Se fosse verdade, haveria centenas de publicações tratando do tema. Não há resquício de prova, só boataria. 

Suspeito que essa comissão da verdade também vai tratar de boatos e suposições e também servirá a uma determinada corrente ideológica. Vai ser um pouco como o Missing, que é um bom filme, mas tem suas falsidades. Uma obra de arte que serviu para os interesses de um diretor engajado e pouco preocupado em ser isento.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Política


Em 15 de julho de 1886, o deputado piauiense Simplício Coelho de Resende, empedernido político conservador, subiu à tribuna da Câmara dos Deputados para atacar o coronel Cunha Matos, oficial do Exército e herói da guerra do Paraguai.
O crime do Coronel teria sido o de acusar o Capitão José de Lima, ex-comandante da Companhia de Infantaria do Piauí e correligionário do deputado, de malversação de recursos públicos.
Para Simplício de Resende, o coronel agira por motivações políticas, o que lhe bastou para acusá-lo de traidor, a logo ele, Cunha Matos, que havia sido prisioneiro de guerra dos paraguaios e comera o pão que Solano Lopez amassou.
Registre-se que o Ministro da Guerra estava no recinto e nada fez para desmentir o acusador. Cunha Matos defendeu-se pelos jornais, o que lhe valeu rigorosa punição. O coronel cumpriu dois dias de prisão no regimento de artilharia aquartelado em São Cristóvão. Cunha Matos sofreu o castigo em silêncio e não procurou sequer protestar contra o arbítrio do ministro. Mas houve quem protestasse.
Esse foi o episódio que detonou a crise militar e desandou o império.
Na época, já era proibido aos militares manifestar-se pela imprensa quanto a assuntos de natureza política. Muito sabiamente, nossos regulamentos nos proíbem aos militares da ativa esse tipo de manifestação. Caxias e Osório, comandantes indispensáveis do nosso Exército, desentenderam-se por causa de política; o Marechal Deodoro e o General Câmara também.
Não vou prolongar muito a discussão sobre o tema, mas percebo que diminuiu muito e é cada vez menor o repúdio ao Exército, habilmente incutido à população já durante os governos militares, pelos meios de comunicação brasileiros, infiltrados pela ideologia dominante.
Parece que o povo está acordando da sono letárgico da utopia comunista e se apercebendo que os vermelhos gostam mesmo é de dinheiro, roubam e mentem; e que os verdes são honestos no seu caráter e em suas atitudes.
Pensem nisso antes de atirar pedras nos chefes de ontem e de hoje.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Bolsa Família

Eu mantenho há muito tempo um banco de dados onde guardo as principais notícias publicadas pela imprensa. Embora desatualizado, considero valioso meu acervo de informações. Vejamos, então, esta notícia transcrita a seguir.


Publicado pela Revista IstoÉ, Edição 2189 e transcrito na Resenha do Exército
"Os emergentes do Bolsa Família"
Carlos José Marques, diretor editorial
Há um fenômeno recente que reforça a ideia de um avanço consistente de uma nova classe de consumidores brasileiros. O fenômeno está vinculado ao maior programa social do governo. Nos últimos tempos não parou de crescer o volume de pessoas que abandonaram o Bolsa Família, por vontade própria ou não. Pode parecer uma incongruência, mas a saída de participantes do programa – sem que isso signifique a diminuição do número de atendidos, dada a entrada de mais aspirantes ao benefício – está diretamente ligada à melhoria do poder de compra da população. Os brasileiros que deixaram de receber o valor pago pelo Estado o fizeram por não se enquadrar mais no teto de renda familiar previsto – que é de R$ 70 a R$ 140 mensais, por pessoa. Ultrapassaram esse limite. Melhoraram de vida, tiveram acesso ao mercado de trabalho e conquistaram outras fontes de recursos. Na ponta do lápis, saíram do programa, desde a sua criação em 2003, cerca de 2,227 milhões de famílias, em razão exclusivamente da subida de status social. A classe emergente dos que antes estavam na condição de miséria absoluta também coloca por terra outro mito que cercava o Bolsa Família: o de que era um programa meramente assistencialista, que acomodava os participantes na condição de sustentados pelo Estado, sem estimular sua ida para o setor produtivo. Os que evoluíram para a nova condição de ex-assistidos conseguiram o feito graças principalmente ao reajuste do salário mínimo em patamares bem acima da inflação – uma medida com impacto positivo nessa camada de renda, mas que em contrapartida provocou também um aumento considerável dos custos nos setores público e privado. Atualmente mais de 12 milhões de pessoas estão cobertas pelo Bolsa Família, o que representa a quase totalidade dos 16 milhões de brasileiros classificados abaixo da linha de indigência (com renda mensal per capita inferior a R$ 70). É um fator digno de nota. Os frutos do programa são inegáveis hoje. A experiência já serviu de modelo para outras partes do mundo. As críticas de que não vingaria dado o seu cunho demagógico caíram por terra após um trabalho sistemático de combate aos desvios e irregularidades. E, em grande medida, por conta da iniciativa, o País viveu uma alavancagem econômica com a chegada ao mercado de milhões de novos compradores.



Comentário: eu fui um crítico do Bolsa Família, mas hoje o considero como um catalisador na difícil reação para a ascenção dos mais pobres. Reconheço o mérito dos seus idealizadores.