domingo, 8 de maio de 2011

Radicais e autoritários



Sempre gostei de escrever e, neste ano, tenho frequentado diferentes blogs, onde me empenho em transmitir minha opinião a respeito dos mais variados temas.
Contudo, num deles, tenho sido alvo de ataques ofensivos de um outro leitor.
Ora, o embate educado de ideias é salutar; ofensas, não.
Os Blogs têm a virtude de permitir que pessoas de diferentes pontos de vista exprimam suas opiniões; mas há quem se incomode com isso.
Eu deveria esperar por isso, pois na vida sempre haverá quem envenene o poço para depois reclamar da sede.
Hoje, lembrei de Júlio de Castilhos, líder político riograndense do final do Século XIX. Contarei um pouco de sua história.
Castilhos nasceu em 1860, filho de uma família de posses. Na infância, era ridicularizado pela sua gagueira e pelos sinais da varíola, que haviam marcado o seu rosto.
Com a morte do pai, Castilhos herdou uma boa soma de dinheiro, que lhe permitiu estudar na Faculdade de Direito de São Paulo. Ali, aos dezenove anos, sobressaía-se pela inteligência e qualidade de seus textos literários. No ambiente acadêmico, sofreu irremediável influência do positivismo.
Com o fim do curso, regressou à sua terra e, pouco depois, estabeleceu-se em Porto Alegre, onde fundou o Partido Republicano do Rio Grande do Sul e o Jornal “A Federação”, de que era o editor-chefe. Com menos de trinta anos de idade, Castilhos era um adversário feroz e temido pelos políticos conservadores e liberais daquela província.
As páginas de “A Federação” contêm textos memoráveis, dignos da história, onde Castilhos exercia sua imensa capacidade de convencimento. Promoveu uma campanha exemplar contra a escravidão e pela decência na administração pública. Seu jornal era lido nas províncias e era uma referência dos republicanos na Corte.
Veio a República e, em pouco tempo, Castilhos assumiu a Presidência do Estado do Rio Grande do Sul.
O jornalista combativo, anti-escravocrata, campeãos da ética e da moralidade, revelou-se um governante muito probo, mas intolerante e implacável.
Em seu governo, desenrolou-se boa parte da Revolução Federalista e Castilhos foi um dos responsáveis pela radicalização do conflito. Em seu nome, muita gente foi morta; em seu nome, muitos prisioneiros foram degolados. Ele era um homem que não sabia conviver com os opostos.
Então, eu lhes digo que por trás de um radical, sempre haverá um autoritário.
O radicalismo é um câncer e, acreditem, contra o câncer não pode haver tréguas. É triste, mas é assim.
Bom domingo para todos vocês
Até breve

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A adoção por casais homossexuais.

É mais fácil falar da morte de Bin Laden do que comentar sobre a decisão do STF a respeito da união civil de pessoas do mesmo sexo.

Isso porque este tema implica num conflito de valores. Considero fundamental a instituição da família tradicional, formada por pai, mãe e filhos; por outro lado, também reconheço a necessidade de preservar os direitos dos que vivem diferentemente da maioria, por escolha ou mesmo pela imposição de sua própria natureza.

Olhando de perto, a decisão do STF é benéfica, pois legitima a união de pessoas que agora ampliam as possibilidades de viver sua vida íntegra e honestamente, sem provocar máculas para a sociedade. Contudo, quando se enxerga o quadro numa perspectiva mais ampla, observa-se que essa decisão pode impulsionar outras iniciativas em que haverá risco de ferir os direitos alheios. Trato, então, do direito de um casal homossexual adotar uma criança.

A medida do STF reconhece o direito dos casais homossexuais viverem sua vida de modo mais completo, retirando várias restrições que lhes impediam de usufruir os mesmo direitos da maioria dos cidadãos brasileiros. Ela desobstrui, pelo menos em parte, seu caminho para a felicidade. Se esse é o sentido, como negar-lhes, então, o direito da paternidade?

Para muitos, criar um filho é desfrutar a plenitude da vida. Então, como negar aos homossexuais a possibilidade da adoção?

O livre arbítrio é válido enquanto não causa danos físicos ou morais aos outros e, por isso, essa possibilidade implica numa reflexão mais profunda. De um lado, adotar uma criança pode representar a realização da vida de um casal homossexual, a confirmação do direito de ser feliz. Entretanto, ao se olhar o fato sob a ótica da criança, essa adoção poderá significar uma imposição a quem ainda não tem maturidade para decidir se quer, ou não, fazer parte de uma família fora dos padrões normais da sociedade.

Contudo, também é certo que, para muitas crianças, a opção em ser criada por um casal homossexual será imensamente melhor que a de crescer no abandono ou num lar desestruturado.

Creio que esse tema despertará debates muito mais acalorados do que os que levaram ao reconhecimento da união homossexual.

Pode-se dizer que foi boa a decisão do STF que legitimou situações que ocorriam de fato, mas que careciam do amparo da Lei. Contudo, é certo que ainda haverá muita discussão à medida em que surgirem as próximas demandas dos casais homossexuais.

O dilema da tortura

A questão do emprego de tortura pelos norte-americanos está associada à identificação do esconderijo de Bin Laden. Há quem defenda essa prática como método investigativo e os que a abominam incondicionalmente. São posições extremas e claramente antagônicas entre si. Mas há também os que transitam de um extremo ao outro sem maiores pudores de consciência.

Recentemente, assisti a um filme que trata do conflito moral no emprego da tortura. O “unthinkable” conta com a participação do Samuel L Jackson, que representa um especialista em torturas com a missão de extrair, de um terrorista, a informação de onde estão posicionadas três bombas atômicas. Muitas vidas estão em jogo e o terrorista resiste ao interrogatório, mesmo sob tortura. Ao longo da trama, à medida em que cresce o desespero em achar as bombas, diminuem as restrições morais no trato ao torturado.

Embora haja um intenso esforço para sua demonização, a tortura permanece um assunto muito controverso. Evidentemente, trata-se de uma prática cruel, que fere os princípios do respeito à dignidade humana e que não deveria ocorrer. Não num mundo ideal.

Ocorre que o mundo está longe do estado de paz e harmonia desejado.

A tortura é desumana, sim; como também são o assassinato de inocentes, a morte de crianças e tantas outras atrocidades. Essas práticas ferem nossos valores, mas, dependendo das circunstâncias, podem, ou não, ser toleradas.

Considero que é necessário refletir sobre esse tema, como se faz, por exemplo, ao avaliar se foi certo, ou não, lançar as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Para uns, lançar a bomba foi um ato bestial e desnecessário, resumindo-se no assassinato covarde de centenas de milhares de inocentes; para outros, o seu lançamento abreviou o desfecho da guerra e serviu para poupar muito mais vidas que seriam perdidas.

Não é fácil dizer se a tortura é, ou não, um eficiente instrumento investigativo. Também não se pode negar que é uma prática bárbara e cruel. Contudo, é hipocrisia continuar demonizando-a num momento, para utilizá-la, em seguida, num caso de necessidade.

Acho que é preciso tratar esse tema com humildade, pois jamais se pode dizer: "dessa água nunca beberei"



quinta-feira, 5 de maio de 2011

Um bunker em Bagdá

Em 1998, eu passei alguns meses trabalhando no Iraque. Durante aquele tempo, eu cumpri uma tarefa que tomei por obrigação moral. Por duas vezes, visitei um bunker na periferia de Bagdá que havia sido atingido durante a primeira guerra do Golfo, em 1991. Tratava-se de um edifício fortificado, destinado a abrigar a população de um bairro dos bombardeios despejados pelas forças norte-americanas.

De acordo com a guia do local, num desses ataques, o bunker estava lotado. Havia algo como umas mil pessoas abrigadas ali, a maioria mulheres e crianças. Daí, veio o primeiro míssil Tomahawk que perfurou a grossa espessura de concreto armado do teto. Em seguida, veio o segundo míssil. O bunker tornou-se uma bola de fogo. O edifício manteve-se praticamente intacto, mas quase todos que nele se abrigavam morreram imediatamente.

Depois da guerra, Saddam Hussein transformou aquele edifício numa espécie de monumento. Nas duas visitas, fui recepcionado pela mesma mulher, uma sobrevivente do ataque norte-americano, que também era minha guia e se apresentava como uma mãe orfã de seus cinco filhos. Ela os deixara ali, naquele bunker, poucos minutos antes dele ser atingido. Fora pegar algo em casa, ali perto, deixou suas crianças sob os cuidados do menino mais velho e nunca mais os viu.

Na visita, notei que as paredes internas do bunker continham pedacinhos de pele carbonizados. Eram marcas de pequenas mãos, mãozinhas de crianças, grudadas no cimento.

Lembrei que, na época da guerra, aquele ataque ganhou destaque da imprensa e muitos reclamaram. Houve um claro desconforto do governo norte-americano que, por fim, explicou que algumas altas autoridades iraquianas usavam os civis como escudo. Esses governantes eram um lícito alvo de guerra. Então, prevaleceu o argumento de que era certo lançar mísseis contra um pequeno grupo de inimigos, mesmo que isso significasse sacrificar várias centenas de vidas inocentes.

Vinte anos depois, os Estados Unidos lançaram outro ataque contra outra fortaleza. Na casa murada, próxima a uma academia militar do Paquistão, morava Osama Bin Laden, o terrorista mais procurado do mundo, responsável por várias dezenas de milhares de mortes, também inocentes. Na ação, morreram Bin Laden e algumas outras poucas pessoas.

Dessa vez, há quem reclame que o genocida foi executado quando poderia ser capturado vivo.

Pode ser que a razão esteja com quem se queixa, mas também pode ser que nem tanto assim. Para mim, o terrorista sofreu o castigo merecido e não fico triste por ele. Tristeza mesmo eu tenho é por aqueles pequenos pedaços de mãos grudados nas paredes de um bunker em Bagdá.


Ainda Bin Liden

Há quem se perturbe com o fato de Bin Laden ter sido morto quando estava desarmado e poderia ser capturado vivo; também há os que reclamam da ação norte-americana em solo paquistanês, sem o conhecimento prévio daquele país. 
 
Os Estados Unidos caçavam o terrorista havia quase uma década. Ele mantinha residência no Paquistão e morava numa casa espacosa, muito próxima à principal Academia Militar daquele País. Há quem acredite que pelo menos algumas autoridades paquistanesas sabiam, sim, da presença de Bin Laden naquelas redondezas.

Bem, o Paquistão é um país com quase a população do Brasil, dispõe de um forte aparato militar, possui artefatos nucleares e há décadas mantém uma disputa territorial com a Índia. Para resumir, situa-se numa região sensível do mundo e é um país muito poderoso militarmente.

Na minha opinião, não se pode pensar que uma guerra ao Paquistão seria algo fácil e indolor. Muito pelo contrário.

Bin Laden foi o promotor de diversos atentados terroristas em vários países. Suas ações influenciaram na decisão dos Estados Unidos em invadir o Iraque e o Afeganistão. Sem grande exagero, pode-se afirmar que ele foi o responsável, direta ou indiretamente, pela perda de várias dezenas de milhares de vidas. Desde os atentados de 2001, o povo norte-americano aspirava pela sua captura ou morte, bem como pela liquidação da Al-Qaeda.

Diante de tudo isso, será que os Estados Unidos erraram em realizar, à revelia do conhecimento do governo paquistanês, a operação que resultou na execução de Bin Laden? 

Será que a alternativa de avisar o Paquistão resultaria na fuga de Bin Laden e no prolongamento da caçada?

Por fim, será mesmo que o assassinato de Osama Bin Laden merece todo esse debate?






terça-feira, 3 de maio de 2011

Vento e ventania

O Blog do Alon Feuerwerker hoje trata da “pax americana”, que impõe cuidados, principalmente aos países detentores de riquezas.

Aquele blogueiro mencionou o caso do Iraque. Por isso, tratarei sobre aquele país mesopotâmico. É bem verdade que a invasão do Kuwait pelos iraquianos, em 1990, impunha um corretivo exemplar ao agressor. Só que ele foi devidamente aplicado.

Durante o período entre as duas guerras do Golfo, os Estados Unidos, por meio da ONU, impôs ao Iraque um embargo draconiano. O país de Sadam Hussein enfrentou mais de uma década de sanções. Um programa das Nações Unidas, maldosamente batizado de “oil for food”, determinava restrições comerciais que impediram até a manutenção da infraestrutura que existia antes da guerra de 1991. 

Pelo "oil for food", o Iraque podia exportar anualmente algo como dois bilhões de dólares em petróleo e usar as receitas exclusivamente para importar alimentos e algumas peças sobressalentes. Estive naquele país nessa época. O pão era muito barato, mas o baixo salário de um trabalhador não lhe permitia comprar mais do que algumas poucas dúzias de laranjas por mês. Não havia fome, mas muita gente mal nutrida.

Os atentados de onze de setembro representaram um duro golpe ao orgulho norte-americano. Alguém teria que pagar por isso e quem melhor que um velho inimigo? Reza a lenda que, nos dias seguintes à queda das Torres Gêmeas, a cúpula governamental de Washington já havia decidido pela queda do regime de Saddam Hussein.

Dessa vez, juntou-se a fome de vingança com o desejo pelo petróleo iraquiano. A justificativa? Ora, as temidas Armas de Destruição em Massa que, diziam, o Iraque escondia. Essas armas foram exaustivamente procuradas e nunca encontradas pela ONU. Mesmo depois da invasão e da ocupação daquele país, ninguém as achou.

Indo direto ao ponto, não havia porque procurar um motivo para a guerra, quando um simples pretexto bastava.

Por isso, os países detentores de riquezas devem estar atentos para onde seguem os ventos da política norte-americana. No momento, sopra uma suave brisa para nosso lado, mas sempre há o risco de uma nova temporada de furacões.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O dia em que Obama matou Osama

A notícia do dia é a morte de Osama Bin Laden. O presidente dos Estados Unidos anunciou que o terrorista foi morto por um Comando norte-americano, após um tiroteio na mansão onde residia, num condomínio da periferia de Islamabad, capital do Paquistão.

Embora seja embaraçoso comemorar a morte de um ser humano, eu me incluo dentre os que festejam o fim da caçada àquele terrorista.

A caça a Bin Laden durou quase uma década. Os ataques da Al Qaeda em onze de setembro de 2001 provocaram milhares de mortos e um forte sentimento de indignação em boa parte da população mundial. Depois, a mesma rede terrorista promoveu atentados em Londres e Madrid, que causaram centenas de vítimas e reforçaram a repulsa pelas suas ações.

Os ataques terroristas desencadearam forte reação dos Estados Unidos e motivaram a invasão do Afeganistão e do Iraque. Na conta dos mortos, deve-se acrescer as centenas de milhares de vítimas tragadas na esteira da fúria norte-americana em busca de vingança.

Ontem, Barack Obama anunciou a morte de Osama Bin Laden. De certo modo, Obama matou Osama e espero que isso seja o fim de tanta matança.