sexta-feira, 15 de junho de 2018

Os ultrajovens


O poder dos ultrajovens


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O poder dos ultrajovens

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"Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem", escreveu Carlos Drummond de Andrade no final dos anos 1960, em uma crônica que versava sobre o embate de um pai com a filhinha em torno de uma lasanha. Ele insistia, ela ignorava. Ele repetia, ela se mantinha firme em seu propósito. Ele tergiversava, ela o lembrava do que queria. Ela ganhou por coerência. Ele perdeu por não entender a dinâmica dos tempos. A premissa é mais atual do que nunca. A força do poder ultrajovem é inexorável.

 

De acordo com pesquisas recentes, se depender da geração que tem por volta dos 20 anos (a mesma idade de ÉPOCA), estão encrencados os hotéis, as lojas de departamentos, as cadeias de restaurantes, a indústria automobilística, o comércio de diamantes, a produção de guardanapos e de canudinhos, os programas de fidelidade de hotéis e de cartões de crédito, os jogos de azar, os bancos, a produção de amaciantes de roupa, o sonho da casa própria, a ideia de casamento estável, os acasos felizes, as viagens de cruzeiro, as emissoras de TV aberta, os políticos de ocasião, os planos de aposentadoria, Paris e até o milk-shake do Bob"s.

 

Eles resolvem a vida (para o bem e para o mal) pelo celular, sorvem coisas de cor verde (comer virou questão de identidade), têm um pendor para medicamentos identificados com uma tarja preta, passam a noite em claro, não se sabe se estão trabalhando ou relaxando, gostam de empunhar bandeiras universais, mas se preocupam mesmo é com sua persona nas redes sociais, pensam igual a quase todo mundo da mesma geração, comportam-se como adolescentes apesar de terem idade de adultos, tecnologia lhes é tão intrínseco como respirar, ser de esquerda é do jogo, ter o nariz em pé é condição sine qua non, gostam de Insta Stories porque ele dura pouco, arriscam tudo por terem pouco a perder, rechaçam qualquer coisa que contenha plástico, gostam de viajar para lugares onde podem mostrar novidades no Instagram. Eles são o que são ou são o que querem parecer ser?

 

"Eles se tornam personagens de suas próprias vidas, preocupados com narrativas, contextos, motivações. Estão sempre esperando pelo terceiro ato — que nunca chega", disse um estudo da Boxl824, conduzido pelos pesquisadores Sean Monahan e Sophie Secaf nos Estados Unidos, sobre o que chamaram de GenExit, a geração que opta por experimentar novas possibilidades identitárias, mais livres e menos deterministas, mas não menos disruptivas.

 

Ainda que esteja cansado depois de um dia longo, o estudante de publicidade Luigi Dalmolin, de 21 anos, só vai para a cama após um banho quente. Por isso, entre uma ensaboada e outra, Dalmolin assiste a vídeos no YouTube ou responde a mensagens no WhatsApp, Graças a uma providencial capinha à prova d"água, ele faz parte de uma minoria — surgida recentemente — que toma banho com 0 telefone celular dentro do box. Estar com 0 celular nas mãos 0 tempo todo como faz Dalmolin, conectado, com os olhos vidrados e os dedos tocando a tela, é um dos principais comportamentos identificadores dos ultrajovens (ou geração Y). São as pessoas nascidas entre 1982 e 2000 (segundo 0 Census Bureau, agência governamental encarregada pelo censo nos Estados Unidos), ou entre 1981 e 1997 (segundo o instituto de pesquisa americano Pew Research Center). Os jovens apresentam características que os diferenciam das gerações anteriores e refletem mudanças relevantes no mundo.

 

A principal distinção dos ultrajovens é a necessidade de estar conectado o tempo todo. Smartphones são sua porta de acesso ao mundo; 43% dos jovens são como Dalmolin: não vão ao banheiro sem seus celulares. O aparelho é tão importante que 42% deles afirmam que deixariam de ir à academia se não pudessem levá-lo.

 

A fixação por smartphones atinge outras faixas etárias, mas, no caso dos ultrajovens, deu origem à "era da distração". A fartura de dispositivos conectados á internet está reduzindo cada vez mais a capacidade de concentração. No início de maio, Cari Marci, neurocientista e médico especialista em questões ligadas ao consumo e ao comportamento, esteve no Brasil para apresentar o resultado de pesquisas neurológicas realizadas por sua empresa, um braço da gigante teuto-americana Nielsen.

 

Marci encara a tal distração como resultado da falta de tempo ocioso. Os "nativos digitais" não se enfadam, porque estão sob constante estímulo. Se estão na fila do mercado, não precisam "esperar"; é só sacar o celular e responder a uma mensagem ou dar uma conferida nas notificações das redes sociais e pronto: a fila andou rapidinho.

 

Essa constante alternância entre a vida real e as plataformas digitais gera um alto nível de emoção e engajamento. Quimicamente, esse fenômeno estimula a dopamina, o "neurotransmissor do prazer" — ou seja, os ultrajovens ficam literalmente felizes com essa interação toda. Marci chama isso de "regulador de humor". "Quando você cresce em um mundo com esses dispositivos, surge a possibilidade de calibrar suas emoções", disse a ÉPOCA. "No entanto, há uma questão importante a ser observada: ao estar constantemente pegando e guardando o celular, você passa a não dar atenção completa a nenhuma das atividades que está fazendo." Prevalece a distração.

 

Em seus estudos, Marci comparou a capacidade de concentração de nativos digitais com a de "imigrantes digitais", aquelas pessoas que já eram grandinhas quando a internet se popularizou, na segunda metade da década de 1990. O experimento foi feito pela observação de para onde os participantes olhavam durante a transmissão de um programa de TV: o celular ou a televisão. Os resultados mostraram que um imigrante digital troca a atenção 17 vezes — o que lhe garante uma média de atenção de cerca de três minutos. Já o nativo digital troca 27 vezes — uma queda de 30% no tempo em que consegue prestar atenção em algo (cerca de dois minutos). Levando em conta que ver televisão exige pouco esforço cognitivo, não parece ser um grande problema ter a atenção mais dispersa — até porque, segundo Marci, conforme vamos envelhecendo, a capacidade de concentração aumenta. 

 

Porém, Marci encontrou um estudo parecido, feito com crianças de 3 anos, e a comparação dos resultados o alarmou. As crianças trocaram a atenção entre seus brinquedos e a televisão 33 vezes. Ou seja: os nativos digitais têm uma capacidade de concentração muito mais próxima à de uma criança do que à de um adulto. "0 que me preocupa, como médico, é que, se não falarmos sobre isso, as pessoas passarão a transferir esse comportamento para outras áreas de suas vidas", disse Marci.

 

Em 70 mil anos de existência, os cérebros humanos nunca tiveram tantos estímulos quanto os que hoje afetam os ultrajovens. Eles são cobaias da adaptação física e intelectual a novidades incessantes. Ao mesmo tempo que possuem facilidades que seriam impensáveis anos atrás — conectar-se com um sem-número de pessoas e informações mundo afora em segundos —, também encaram os primeiros sinais de alerta dessa exposição, traduzidos em altos níveis de ansiedade e depressão.

 

Em abril, Lucas Crispim, analista de marketing de 26 anos, desafiou a si mesmo a ficar 24 horas desconectado. Desinstalou o Facebook e o Instagram de seu celular para não ter a tentação de acompanhar o andamento de curtidas, visualizações e notificações. Não deu certo. "Não consegui sequer chegar à marca de oito horas", disse. "A ansiedade foi demais." Essa aflição é comum a muitos jovens. Pesquisas apontam que esta é a geração mais irrequieta que já existiu.

 

"Nomophobia" (do termo em inglês "no-mobile-phone phobia", ou "fobia de ficar sem celular", em tradução livre) foi o termo usado para caracterizar esse comportamento em estudo feito no Reino Unido, em 2013, pela empresa de marketing OnePoll. O levantamento mostrou que mais da metade dos usuários ficava ansiosa quando perdia o aparelho, quando ficava sem cobertura da rede ou quando a bateria acabava. Em pesquisa da empresa americana Coupofy, 20% dos usuários admitiram que seus celulares são a única razão pela qual não dormem o suficiente.

A ansiedade dos jovens se manifesta não só pela distância dos smartphones, como também pela proximidade: 58% dos entrevistados pela Coupofy acreditam que a ansiedade é o principal efeito colateral do comportamento compulsivo. Adolescentes que têm relações de quase dependência com celulares e com as mídias sociais experimentam níveis elevados de estresse, agressividade, depressão e distração, além de baixa autoestima e sono.

 

"Sinto que tenho uma relação de amor e ódio com o celular. É bom estar com ele. Ao mesmo tempo, pode ser ainda melhor estar sem. Ainda assim, não largo dele", disse Luigi Dalmolin, com o celular na mão, óbvio, mas ao menos fora do chuveiro. Os jovens, como principais usuários do Instagram — 59% deles têm entre 18 e 29 anos —, são os que mais sofrem. A angústia de acompanhar a vida alheia nas redes sociais tem nome: FoMO. A sigla foi cunhada em 2004 por Patrick J. McGinnis em um artigo na revista The Harbus, da Harvard Business School, a partir do termo "fear of missing out" (ou "medo de ficar de fora", em tradução livre).

 

Como designer, Victor Campos, de 24 anos, exerce uma atividade que exige persistência e repetição. Contudo, ele conta que ultimamente desiste de algumas atividades quando percebe que não conseguirá um resultado bom em um tempo curto. Quando desenha, por exemplo, se não consegue algo de qualidade logo na primeira investida, deixa de tentar. "Sofro por não ter conseguido e paro", disse. Na esteira da ansiedade, surge também o perfeccionismo a assombrar os jovens. Comparados com as gerações anteriores, os estudantes universitários de hoje são mais duros consigo mesmos, mais exigentes com os outros e se sentem pressionados a atingir a perfeição. 

 

Um estudo publicado na revista acadêmica Psychological Bulletin em janeiro deste ano examina respostas a um famoso teste sobre perfeccionismo, desenvolvido pelo psicólogo Randy O. Frost, chamado Escala Multidimensional da Perfeição. Dividida em seis dimensões, a escala leva em conta os níveis de preocupação por cometer erros, de rigorosa autocrítica e cobrança, de busca por excelência, de percepção de altas expectativas e crítica parentais, de dúvida sobre a qualidade das próprias ações e de preferência por ordem e organização. Foram analisados mais de 40 mil estudantes universitários, que participaram da pesquisa entre 1989 e 2016. Os resultados mostraram um aumento de 10% no perfeccionismo autodirecionado (voltado para si mesmoj, de 33% no perfeccionismo socialmente prescrito (altos padrões ditados pelas expectativas dos outros) e de 16% com relação a terceiros (padrões perfeccionistas que são aplicados a outras pessoas).

 

De acordo com Thomas Curran, um dos autores do estudo, os dados sugerem as mídias sociais como um dos culpados. "Os jovens relatam expectativas educacionais e profissionais cada vez mais irreais para si mesmos", afirmou. "Como resultado, o perfeccionismo está aumentando entre eles." A comparação de cada um com o que se vê nas redes sociais se tornou o grande ladrão da alegria alheia.

 

Redes sociais oferecem parâmetros a essa geração. Não apenas os de autoavaliação, mas também de informação e diversão. A maior parte dos jovens lê notícias no Facebook, a mais presente das redes sociais. Em 2015, a agência americana Quartz informou que o Brasil lidera o ranking de consumo de notícias pelo Facebook, com 67% de sua população buscando informação prioritariamente nessa plataforma.

 

O especialista americano em comportamento do consumidor Morris Holbrook afirmou que, duas décadas atrás, pesquisadores de marketing passaram a prestar mais atenção nos aspectos hedônicos e nas experiências de consumo ?— conhecidos como fantasias, sentimentos e diversão (ou, em inglês, os "três Fs": fantasy, feelings e fun). Pesquisas mais recentes ampliaram ainda mais essa visão e levaram ao reconhecimento dos "quatro Es" — experiência, entretenimento, exibicionismo e evangelização. Foi aí que surgiu a noção de marketing experiencial. Os indivíduos não apenas recebem experiências de modo multissensorial, mas também respondem e reagem a elas. Combine tudo isso à necessidade de não perder nada e cria-se um público sedento por participar e compartilhar — e essa parte é essencial. Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos americano, 75% dos jovens nos Estados Unidos valorizam as experiências acima de outros eventos e 48% deles participam de eventos para compartilhar nas redes sociais. "Ao chegar a algum lugar diferente, só depois de tirar uma foto "digna de ser postada" eu aproveito", contou Gabriele Borges, de 20 anos, estudante de comércio exterior.

 

0 empenho social se reflete nos aspectos profissionais da vida dos jovens. De acordo com um estudo de 2016 feito para a agência Lynx pela Bowler/Pimenta Pesquisa, 54% da geração Y acredita que as empresas devem se engajar e assumir bandeiras sociais e, para 82% desse público, as companhias têm poder transformador. Dos entrevistados, 43% são capazes de citar empresas engajadas em causas sociais e ambientais e dar exemplos dessas iniciativas.

 

A pesquisa Jovens e a geração nem-nem, realizada pelo Centro de Inteligência Padrão (CIP), em parceria com a empresa de pesquisa digital MindMiners, mostra que 66,4% dos jovens concordam que causas como criação ou manutenção dos direitos de minorias sociais, como dos LGBTs, negros e imigrantes, são importantes. Para eles, levantar bandeiras a respeito de problemas sociais e realizar ações para diminuir desigualdades pode colocar empresas em outro patamar. Não é à toa que 76,7% gostariam de trabalhar em uma empresa com políticas de inclusão social. Para aproveitar o potencial criativo dos jovens, os empregadores precisam oferecer um espaço que ao menos tente estar à altura de suas expectativas.

 

Eles preferem fazer compras on-line e apostar em marcas que prezam pela ecologia, criando peças de roupas descartáveis ou que não usem produtos de origem animal. Segundo um relatório de 2014 do grupo de pesquisas americano Brookings Institute, os jovens demonstraram maior confiança e lealdade — assim como maior propensão a comprar — a marcas que apoiam soluções para causas sociais específicas.

 

Isso vale também para comida. Para essa geração, a comida não é apenas comida, é comunidade. Em 2014, nos Estados Unidos, estimava-se que 12% dos jovens fossem "vegetarianos fiéis", em comparação com 4% dos membros da geração X (os nascidos entre as décadas de 1960 e 1980) e 1% dos baby boomers (os nascidos logo após a Segunda Guerra Mundial). Uma pesquisa do Ibope indicou que 7% dos brasileiros entre 20 e 24 anos se declaram vegetarianos. O mercado vegano cresce 40% ao ano no país.

 

Conectados, engajados, vegetarianos, os ultrajovens diferem muito de seus predecessores. A parte da diversão que envolve a noite e as drogas tradicionais parece não interessá-los tanto assim. Na última década, 10 mil bares e casas noturnas fecharam nos Estados Unidos. Na Inglaterra, quase metade desapareceu. Em São Paulo, entre 2012 e 2015, a diminuição foi de 15%. Segundo a pesquisa americana Gen Y and housing (Geração Y e habitação), em 2010 pouco mais de 60% dos jovens frequentavam casas noturnas e, entre os que o faziam, apenas 25% iam mais de uma vez por mês.

 

Um estudo da Monitoring the Future, empresa que acompanha o comportamento dos jovens nos EUA, mostrou que o uso de drogas sintéticas e álcool por adolescente às vésperas da maioridade chegou a seu nível mais baixo desde que a pesquisa foi iniciada, em 1975. Apenas 40% dos estudantes declararam ter ingerido algum tipo de bebida alcoólica. De acordo com uma análise feita pelo DrugAbuse.com, uma linha telefônica de tratamento contra as drogas, os jovens americanos usam menos maconha e cocaína do que as gerações anteriores faziam na mesma idade. No entanto, à medida que as principais drogas de rua se tornaram menos populares, analgésicos e antidepressivos preencheram esse vácuo: na última década, o abuso de opiáceos disparou. O caminho para o vício geralmente começa com uma receita legal vinda do consultório médico.

 

O álcool não foi considerado no estudo americano. No Brasil, a bebida está presente entre mais de 40% dos jovens que vão para a balada em São Paulo —18% no Brasil todo. E também não se levaram em consideração as drogas sintéticas. "Houve um grande aumento no consumo de bebidas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando foi feito um novo investimento na economia noturna, com a abertura de bares para atrair mulheres jovens e a introdução de bebidas alcoólicas", disse Fiona Measham, professora da Durham University, na Inglaterra, em entrevista ao jornal The Telegraph. Ela estuda os padrões de mudança do uso de álcool e drogas em jovens há mais de 20 anos e argumenta que, embora a bebedeira e o consumo de drogas tenham aumentado desde os anos 1950, esses índices finalmente estão caindo. "A geração anterior à geração Y frequentava muitos bares, bebendo compulsivamente e usando cocaína", disse. "Agora não há aquela embriaguez frenética. Há uma nova sensação de sobriedade entre os jovens."

 

Fora das baladas e usando menos drogas, diminuiu também a prática de sexo. Em um de seus estudos, a psicóloga Jean Twenge, professora e pesquisadora da San Diego State University e autora do livro Generation me, descobriu que os jovens relatam ter menos parceiros sexuais que a geração X e os baby boomers em sua juventude. Um relatório de 2015 do Center for Disease Control and Prevention descobriu que menos pessoas de 15 a 19 anos relatam ter feito sexo se comparadas às gerações anteriores. O declínio é significativo nos dois gêneros, mas particularmente entre os homens. A diminuição também é mais considerável entre os jovens mais jovens. Tudo isso pode ou não estar conectado com o uso das drogas prescritas por médicos. É perceptível que os indicadores de depressão e ansiedade subiram muito nos últimos 50 anos. Segundo um estudo de 2009 de Twenge, mais jovens estão usando antidepressivos e estimulantes, como a Ritalina, que podem diminuir o desejo.

 

Em 2016, o estado de São Paulo registrou queda de 20% na emissão da primeira habilitação em um ano, segundo um balanço do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Especialistas creditam a redução a uma tendência mundial de desinteresse pelo automóvel por parte dos jovens. A venda dos veículos também caiu: na comparação entre o número de emplacamentos de veículos de 2015 em relação a 2014, a queda foi de 22%, incluindo carros, motos, caminhões e ônibus. Considerando apenas o segmento de automóveis, a queda foi de 27% nos emplacamentos, segundo a Fenabrave. É claro que a crise econômica que abate o Brasil desde 2013 é a maior responsável pela diminuição das vendas. Mas há uma percepção de que os mais jovens já não se deixam fascinar tanto por meios de transporte individuais movidos a gasolina como os jovens desde a década de 1950. Essa mudança começa pelas classes AeB, com maior acesso a táxis ou serviços como Uber. Nas classes mais baixas, ter uma carta de habilitação e um carro ainda é sinônimo de liberdade para ir e vir e, portanto, um desejo a ser realizado.

 

Aos 24 anos, prestes a quitar seu primeiro carro, Jaine Mori decidiu vendê-lo. Ela comprou o carro porque seu emprego, na época, demandava que se locomovesse muito. Porém, ao trocar de empresa, a necessidade diminuiu. Ela também aproveitou para se mudar para mais perto do local de trabalho. De repente, o carro pareceu obsoleto. "Eu me mudei para mais perto do metrô e do transporte público em geral. Ficou bem mais fácil me locomover na cidade", contou. Como o carro é um bem que desvaloriza muito e, segundo Mori, "só dá gasto", ela achou que valeria mais a pena vendê-lo do que arcar com o preço da gasolina, do seguro e das revisões. Detalhe: ela pretende vender o automóvel com a ajuda de um aplicativo especializado em cotação, vistoria e contato com clientes. "É muito mais prático", disse.

 

0 carro não é o único costume ligado à ideia tradicional de construção de patrimônio que os jovens estão abandonando. A opções de habitação também vêm mudando. De acordo com um estudo publicado pela Zap Imóveis em 2015, os ultrajovens tinham 40% a mais de interesse em viver de aluguel do que pessoas nascidas em outras gerações. Um levantamento feito no Uruguai mostrou o mesmo movimento: oito em cada dez jovens (com idade entre 18 e 34 anos) estão interessados em alugar, enquanto apenas 20% buscam imóveis à venda.

 

Como o valor gasto com moradia costuma representar a maior despesa do orçamento doméstico, a melhor opção muitas vezes é arranjar alguém para dividir as contas. O costumeiro era casar-se, mas muitos jovens preferem morar com amigos a juntar escovas de dentes com seus parceiros. Segundo o IBGE, os jovens brasileiros de até 25 anos estão casando menos ou mais tarde. Em 2016, homens de 15 a 24 anos marcaram as menores taxas de nupcialidade dos 40 anos de amostra da pesquisa. No grupo de 20 a 24 anos (tradicionalmente o com maiores índices de casórios), os noivos marcaram 23,7 matrimônios para cada 1.000 habitantes — número bem inferior aos 70,5 de 1974. Há dez anos, o índice era de 25,9.

 

Ninguém está dizendo que nos próximos anos os jovens deixarão de casar, morar juntos e ter carros. O que esses indicadores mostram é que hábitos como matrimônio, moradia e carros estão perdendo a importância que tiveram na economia nos últimos dez, 20 anos ou mais. O publicitário Marcos Oliveira, de 26 anos, não quer acumular patrimônio. "Não quero investir dinheiro em um apartamento ou em um carro. Para me locomover, posso usar transporte público ou o particular compartilhado. Se eu comprar um flat para morar hoje e casar em alguns anos, não haverá como morar ali, pois não terá espaço. Não sei o que farei em cinco anos", disse. Para ele, a vida moderna não é tão rígida quanto antigamente. Por isso, não vale a pena enfrentar a burocracia necessária para possuir bens físicos. É trabalho demais. "Diferente de meus pais que viam como uma necessidade ter uma casa e um carro para acomodar a família."

 

Se no século XX a maior indústria reinante era a do automóvel, hoje é a Apple. E, para além de eletrônicos, a geração Y está trocando bens materiais por viagens. Uma pesquisa de 2016 organizada pela empresa de aluguel de habitações Airbnb na China, na Inglaterra e nos EUA apontou que, ao pensar nos próximos cinco anos, os jovens consideram mais importante viajar antes de tudo. Para 70% deles, o ato de viajar está ligado diretamente a suas personalidades e a quem eles são como pessoas. No ano passado, um levantamento do Ministério do Turismo apontou que 28,4% das pessoas entrevistadas com idade até 35 anos faziam planos de viagem, um crescimento de quase 10% se comparado com o mesmo período do ano anterior.

 

Ao priorizar viagens e diminuir a compra de carros e apartamentos, os jovens, que representam cerca de 20% da população mundial, trazem grandes implicações para o formato futuro da economia — e para a velocidade da recuperação da crise. E o mais interessante ainda está por vir: as gerações que chegam a partir dos anos 2000, como a geração Z, partirão das experiências da geração Y para moldar seus costumes. A ver.

Fonte: ÉPOCA

Autor: Nina Finco

O 7 a 1 moral

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O episódio da traição brasileira na escolha da copa 2026 é um exemplo perfeito de todos os nossos defeitos, colecionados.

Tínhamos dado a palavra de apoio aos americanos, canadenses e mexicanos de que iríamos votar neles. Havia, inclusive, um pacto continental para isso.

Na hora do voto, optamos pelo Marrocos. Mentimos e esse é um dos nossos maiores defeitos.

Após o término da votação, que sagrou a tríplice candidatura vencedora, os jornalistas do mundo inteiro voaram para perguntar ao presidente da CBF, Coronel Nunes, o que havia sido aquilo.

Ele: "Não fui eu que votei. Foi uma outra pessoa no meu lugar". A mentira foi revelada pelas gravações. Ou seja: nos eximimos da própria responsabilidade, nosso segundo grande defeito.

Ao ser pressionado, falou: "Eles (EUA) já fizeram copa. Era bom que fosse o Marrocos", traindo a confiança dos nossos parceiros, que é o nosso terceiro e rotineiro defeito.

Depois, em tom de desabafo, ele comentou: "Pensei que o voto era secreto", mostrando despreparo e desconhecimento das regras, nosso quarto defeito.

Ao fim, depois dos cinco minutos mais longos da sua vida, disse em tom jocoso: "É só um voto", fazendo pouco caso da coleção de lambanças cometidas; ou seja, sendo arrogante e se negando a reconhecer os erros, nosso quinto e sexto defeitos.

Enfim, em cinco minutos, através de um dos nossos representantes, reunimos todos os motivos que nos fazem estar onde estamos: nos porões do mundo. Só faltava ele tirar uma pistola e sapecar três ou quatro pessoas, para podermos adicionar a violência e fechar o hall de defeitos com chave de ouro e trazer mais um título de "país da vergonha alheia" ao nosso belo Brasil. :) <3

Ícaro de Carvalho

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Freud explica ... e Soros paga.




Freud Explica

A jornalista me pergunta se pretendo, na condição de dirigente do Clube Militar, dar algum tipo de resposta à divulgação de um documento da CIA acusando o presidente Geisel de crimes que teriam sido praticados no período do seu governo, também com a participação de outro ex-presidente, João Figueiredo, destacando que só o Jornal Nacional gastou três minutos e trinta segundos, sem quaisquer contestações de outras partes.

Pretendo, sim, mas é tão grande o desprezo que nutro pelo jornalismo praticado pelas organizações Globo e também por seus jornalistas de um modo geral, que meu ímpeto seria o de abandonar a versão, a meu ver inteiramente fantasiosa, e falar das razões do meu descrédito. Seus traumas têm tudo a ver com as sombras de um passado que os atormenta e  Freud certamente explicaria. Quem viveu e sabe da atuação da Globo nos idos de 64 entende muito bem a que me refiro.

Em relação aos militares, aceitam como fato consumado uma versão cuja fonte, grau de veracidade sequer são colocadas em dúvida. Naquela casa, hoje, quem tem direito a distorcer os fatos são os bandidos em relação à polícia que os combate, e ontem os subversivos terroristas que pretenderam implantar no Brasil uma ditadura do proletariado com relação às forças legais que lhes deram combate.

Aliás a Globo não precisa ir longe para comprovar o que digo. Nos seus próprios quadros de jornalismo existe hoje, e também em outros tempos, integrantes que aberta e livremente confessam essa intenção. E eles, sim, cinicamente, declaram que em nome dos seus torpes ideais foram capazes de mandar executar quem lhes fizesse oposição.

Quanto aos acusados, Ernesto Geisel e João Figueiredo, os homens de bem que viveram meu tempo sabem bem que os objetivos que estabeleceram àquela altura do governo militar não abrigavam esse tipo de ação. A ordem era restabelecer a plenitude da democracia e devolver o poder aos civis. 

Além do mais estávamos diante de homens íntegros. Não vale um tostão furado o presente documento.

E para completar, quando a jornalista me inquiriu, disse-lhe que não me surpreendia com a oportunidade da divulgação de um documento desse teor e que não acreditava numa linha do que continha. A oportunidade para mim é clara, e é assim que a Globo costuma tornar claro o ódio que deposita nos militares. Temos agora na liderança das pesquisas para as eleições presidenciais um candidato que surgiu do nosso meio e um grupo expressivo de militares que, democraticamente, nesses dias consolidou a intenção de candidatar-se aos mais variados cargos de governo, desde os municipais, passando pelos estaduais até os federais. Isso para a Globo imperdoável. Não suportarão jamais. 
Preparemo-nos para novos embates. A eles nosso permanente desprezo.

O enfoque dado pela imprensa esquerdopata que temos não podia ser outro... é de uma canalhice intelectual de dar medo! Primeiro, a CIA, que sempre é demonizada pela esquerda festiva mundial, se transforma na fonte mais fidedigna do Mundo; segundo, falam como se tivessem descoberto uma nova vala comum cheia de cadáveres, como se os supostos subversivos mortos já não estivessem computados nos somatórios das diversas comissões da (in) verdade, que foram criadas pelo Brasil a fora ao arrepio da lei;  terceiro, o documento em questão não é um documento oficial brasileiro, é um documento produzido por um serviço de inteligência estrangeiro, sobre uma reunião na qual quem o produziu não estava presente e obteve a suposta narrativa de terceiros; quarto, nós, como militares, sabemos que qualquer militar ao assumir o Comando não altera ordens do Comando anterior, começa a se inteirar do que está sendo feito e depois toma suas decisões e muda o que tem que mudar, o Presidente Geisel enfrentava uma situação delicada, deveria ser feito o rescaldo da luta armada, mas o controle deveria ser mantido! Ele centralizou as ações, não chegou a suspendê-las completamente, segundo o tal documento, que para mim não passa de "fofoca diplomática", mas o que a esquerdalha, convenientemente, esquece é de informar quem foi morto durante o Governo Geisel...Esquecem de dizer que o Presidente Geisel puxou o freio de mão quando morreram, no DOI de São Paulo, o Herzog e o Manoel Fiel Filho, e ele exonerou o Comandante do, então, 2° Exército, o General Ednardo D'Ávila Melo, e deu um basta nisso! Ou essa canhota política não sabe quem morreu no Governo Médici e quem morreu no Governo Geisel? Tudo isso evidencia mais uma manobra suja da imprensa esquerdista brasileira, tentando melar as candidaturas de militares, de uma maneira geral, e do Bolsonaro, em particular, associando-os como defensores da tortura e de práticas autoritárias, como se o próprio PT (bem como os partidecos de extrema esquerda que orbitam ao redor dessa ORCRIM) não fosse extremamente autoritário, defendesse ditaduras e tentasse, por diversas vezes, enfraquecer a nossa democracia tentando aprovar projetos de cunho autoritário como o do "controle social da mídia".

quarta-feira, 9 de maio de 2018

UM FALSO PROBLEMA

Nota do blogueiro: esse editorial do Estado de São Paulo é muito lúcido e ataca um aspecto pouco explorado: a aliança entre os governos petistas e as organizações do tipo MTST. 

O ESTADO DE SÃO PAULO

UM FALSO PROBLEMA
Redação
4/05/18
Muito se fala em déficit habitacional no País, mas o correto seria dizer que há um déficit de renda da população.

Há muito tempo se convencionou dizer que o Brasil padece de “déficit habitacional”. A expressão voltou às manchetes em razão do desmoronamento, no centro de São Paulo, de um prédio que abrigava quase 150 famílias de sem-teto. Segundo se diz, essas pessoas, bem como os outros milhares que vivem nas ruas ou então em condições insalubres e perigosas nas chamadas “ocupações” de prédios vazios nas grandes cidades do País, não têm onde morar porque não há casas suficientes para todos. Mas isso simplesmente não é verdade. O que lhes falta é dinheiro para pagar o que se pede no mercado imobiliário, mesmo em regiões afastadas do centro. O correto, então, seria falar em “déficit de renda”.

Pode parecer mera questão semântica, mas não é. Quando se considera que há “déficit habitacional” onde não existe, demanda-se a adoção de políticas públicas que, no mais das vezes, são equivocadas e custosas. Todos os candidatos a prefeito, governador e presidente costumam prometer a construção de milhões de casas para acabar com o tal déficit. Ocioso salientar que tais empreendimentos, embora não resolvam problema algum, têm alto potencial eleitoreiro.

O maior exemplo disso é o famoso Minha Casa, Minha Vida. Cada inauguração de conjunto habitacional do programa, iniciado em 2009, foi transformada em comício tanto no governo de Lula da Silva como no de sua sucessora, Dilma Rousseff. O Minha Casa, Minha Vida adquiriu tamanha dimensão naquele período que se tornou o esteio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Afinal, é muito mais fácil e politicamente lucrativo construir casas e dá-las para os pobres do que investir, por exemplo, em infraestrutura, cujos projetos em geral envolvem prazos muito mais longos, que atravessam diferentes governos.

O caso do Minha Casa, Minha Vida é ainda mais escandaloso porque, nos governos petistas, se prestou a financiar, indiretamente, os grupelhos de baderneiros que dizem defender os sem-teto. Essas organizações ficaram responsáveis por uma parte do programa, escolhendo a dedo os beneficiários – sempre entre os militantes mais aguerridos. Com escasso controle oficial, essas entidades recebiam dinheiro público para tocar as obras, mas entregavam apenas uma fração do contratado, embolsando o restante da verba para bancar suas atividades delinquentes – como a recorrente invasão de prédios públicos. Felizmente, com a mudança de governo, essa farra acabou.

Ainda que não houvesse todos esses problemas, o princípio do Minha Casa, Minha Vida, como da maioria dos outros programas de habitação popular, permaneceria equivocado.

Em geral, as casas desses programas são construídas em regiões distantes do centro da cidade, onde não há serviços públicos básicos, como transporte, saúde e educação. Logo, em muitos casos, é preferível viver em uma ocupação irregular no centro do que em uma casa própria a muitos quilômetros do local de trabalho.

Ademais, são frequentes os casos em que a qualidade das casas entregues por esses programas deixa muito a desejar. Não foram poucas as irregularidades constatadas pelos órgãos de controle nas residências do Minha Casa, Minha Vida construídas durante os
governos petistas, realidade que se repete em outras iniciativas do gênero.

A solução para o problema da moradia popular passa, em primeiro lugar, por reconhecer que o assunto é hoje tomado por mistificações – e talvez a maior delas seja a de que é preciso dar às pessoas de baixa renda a propriedade de um imóvel, realizando o tal
“sonho da casa própria”. Seria muito mais racional, por exemplo, generalizar o modelo de aluguel subsidiado para casas em áreas com melhor infraestrutura e melhores serviços, já adotado em algumas cidades do País. Com isso, mantém-se o nível de produção da
indústria da construção civil e reduz-se consideravelmente o risco de formação de guetos, que é hoje no que se transformou parte dos empreendimentos destinados a acabar com o “déficit habitacional”.

terça-feira, 3 de abril de 2018

O SILÊNCIO DAS FORÇAS ARMADAS

Recebi este texto no WhatsApp. Não sei quem é seu autor, o que é uma lástima, pois ele merece elogios.

O SILÊNCIO DAS FORÇAS ARMADAS

Uma coisa que a população nas ruas não entende é a razão do silêncio das Forças Armadas. O principal motivo desse aparente silêncio é óbvio: as Forças Armadas não podem falar por falar. Qualquer pronunciamento mais incisivo do Comando equivale a ação política. Se, por exemplo, o Comandante do Exército criticar qualquer ato do presidente  da República, ou recusar-se abertamente a cumprir ordens das autoridades civis, isso quase equivale a golpe de Estado, porque das duas, uma: ou o Comandante é demitido, ou o Governo cai. Não existe a hipótese de pronunciar-se contra e ficar no cargo, nem do Governo permanecer incólume no poder após o pronunciamento, desmoralizar-se, ou mesmo cair...Essa situação é muito parecida com a dos juízes. Um dos princípios fundamentais da magistratura é que "o juiz só fala nos autos do processo". Ou seja, o juiz jamais discute em público ou emite opinião sobre os processos. Ele simplesmente absolve ou condena, e justifica por escrito a sua decisão. Isso porque a "opinião" do juiz não é opinião: ela tem força de Lei.

O mesmo ocorre com os militares: eles só falam por meio de atos concretos. Não podem debater nem opinar sobre questões políticas. Mas podem e devem agir, quando essas questões mexem com interesses nacionais.

Interesses nacionais: esse é um ponto ao qual as pessoas não prestam muita atenção. A expressão ficou tão gasta pelo uso, que passou a ser mera frase de efeito, sem consequência, tal como dizer "bom dia" quando o dia de fato é ruim, ou "saúde!" ao brindar com o tóxico uísque paraguaio.

Mas no nosso caso, "interesses nacionais" têm significado que deve ser levado a sério. Vamos entender a lógica.

Vivemos num Estado de Direito, não é verdade?

Ou seja, num Estado onde a Lei está acima de tudo. Todos estão submetidos à Lei, e todas as leis têm de estar de acordo com a constituição, que é a Lei Suprema.

Nesse caso, as Forças Armadas só podem agir dentro da Lei.

E a Lei as submete ao governo civil, eleito pelo "povo". Correto?

Sim e não.

Sim, na normalidade.

Não, nas crises extremas, que põem em perigo a existência ou a integridade da Nação Brasileira.

Vejam como funciona.

Na mesma constituição de 1988, manteve-se um dispositivo das constituições anteriores, que define as Forças Armadas como "instituições nacionais permanentes".

Essa definição implica que as Forças Armadas estão a serviço da Nação, e não do Estado, nem do Governo.

A Nação está acima de tudo.

O Estado é criado pela Nação, e a Constituição é a materialização, a forma de existir o Estado.

Sendo Instituições Nacionais, as Forças Armadas são fundadoras e guardiãs da Nação, portanto anteriores ao Estado e à constituição.

Que significa isso?

Para responder, temos de considerar como se formam as nações.

Nações se formam quando um povo domina um território, demarca suas fronteiras e as preserva e defende eficazmente contra potenciais ou atuais inimigos.

Só então é possível constituir o Estado e o governo.

A força militar é elemento imprescindível à instituição da Nação, a qual é anterior à formação do Estado.

O Estado se institui por meio da Constituição. Mas o Estado e o Governo não abrangem a Nação.

A Nação está acima e além de tudo, porque é a origem de tudo.

E as Forças Armadas, embora sejam órgãos do Estado, subordinadas ao Governo, são em última instância instituições da Nação.

Quando o Estado ou o Governo se voltam contra a Nação (é o que acontece no Brasil de agora), as Forças Armadas podem e devem intervir, passando por cima tanto do Governo como do Estado.

Mas essa responsabilidade é gravíssima, de modo que jamais pode ser exercida com leviandade.

É algo como aquele famoso "botão vermelho" que o Presidente dos Estados Unidos tinha no seu gabinete, que, uma vez apertado, deflagraria a guerra nuclear total, com risco de destruir o planeta.

Dá para entender o silêncio e a aparente imobilidade das Forças Armadas?

Esse silêncio e essa imobilidade, porém, não significam passividade nem conivência com a quadrilha no poder.

Pensem: quais são as reais intenções dessa quadrilha? Ela nunca as escondeu. Seu objetivo é instituir no Brasil ditadura semelhante aos modelos que seus chefes tanto admiram. Algo parecido com Cuba, ou Coréia do Norte, ou Venezuela, ou as ditaduras africanas.

Estando há quase quinze anos no poder, a quadrilha teve todo o tempo e todos os recursos para dar o golpe.

Mas não o fez.

Por que?

Porque não pôde.

Porque a quadrilha tem o Poder, mas não dispõe da Força.Ela manda no Brasil, faz o que bem entende com o dinheiro público, compra a mídia, aparelha o serviço público com nomeados políticos, comete os maiores desatinos em matéria de política externa, é mancomunada com o crime e o narcotráfico, tem tudo nas mãos, mas ainda não conseguiu o seu maior objetivo: a ditadura.

Para isso, precisaria desfechar um golpe de Estado revolucionário, fechar o Congresso, ocupar militarmente o País, estatizar os jornais, tevês e rádios, prender ou matar seus adversários e assim ter meios de confiscar propriedades e estabelecer alguma forma de socialismo. É o que gostariam de fazer, embora jurem que não.

E por que não o fizeram? Porque sabem que não podem contar com as Forças Armadas, nem com as Polícias, para essa aventura.

E sabem que, se tentarem, as Forças Armadas impedirão.

O silêncio e a imobilidade das Forças Armadas, portanto, não significam omissão nem indiferença.

Afinal, muralhas também são imóveis e silenciosas.

As Forças Armadas são as muralhas que impedem o golpe da quadrilha.

Certo, eles, os comparsas da quadrilha, fazem tudo para provocá-las.

Tal como moleques pichadores, eles sujam a muralha.

Difamam as Forças Armadas, procuram humilhá-las com atos como a tal Comissão da Verdade, espalham falsas histórias, fazem tudo o que podem.

Mas não conseguem abalar a enorme barreira, imóvel e silenciosa.

Ela continua firme no seu lugar, e cada vez mais o povo brasileiro compreende que é a sua proteção, o seu abrigo seguro.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Bolsonaro e o fuzilamento da direita



Este artigo foi publicado em agosto de 2011 pela revista Época
Serve como registro histórico.



Coluna - Guilherme Fiuza
Bolsonaro e o fuzilamento da direita
No Brasil de hoje, como se sabe, ninguém é de direita. Ou melhor: a direita existe, mas é uma espécie de sujeito oculto, que só aparece para justificar os heroicos discursos da esquerda - eterna vítima dela. Lula governou oito anos, promoveu seus companheiros aos mais altos cargos e salários estatais, fez sua sucessora, e a esquerda continua oprimida pela elite burguesa. É de dar pena. Nessa doce ditadura dos coitados, é preciso cuidado com o que se fala. Os coitados são muito suscetíveis. Foi assim que o deputado federal Jair Bolsonaro foi parar no paredão.
Capitão do Exército, Bolsonaro é filiado ao Partido Progressista, mas é uma espécie de reacionário assumido. Defende abertamente as bandeiras da direita - que, como dito acima, não existem mais. Portanto, Bolsonaro não existe. Mas fala - e esse é seu grande crime. Depois da polêmica entrevista do deputado ao CQC, da TV Bandeirantes, o líder do programa, Marcelo Tas, recebeu e-mails de telespectadores revoltados. Parte deles protestava contra o próprio Tas, por ter dado voz a Jair Bolsonaro. Na Constituição dos politicamente corretos - assim como nas militares -, liberdade de expressão tem limite.
A grande barbaridade dita por Bolsonaro no CQC, em resposta à cantora Preta Gil, foi que um filho seu não se casaria com uma negra, por não ser promíscuo. Uma declaração tão absurda que o próprio Marcelo Tas cogitou, em seguida, que o deputado não tivesse entendido a pergunta. Foi exatamente o que Bolsonaro afirmou no dia seguinte. Estava falando sobre homossexualismo, e não percebeu que a questão era sobre racismo: “A resposta não bate com a pergunta”, disse o deputado.
Se Jair Bolsonaro é ou não é racista, não é essa polêmica que vai esclarecer. No CQC, pelo menos, ele não disparou deliberadamente contra os negros. Estava falando de promiscuidade, porque seu alvo era o homossexualismo. O conceito do deputado sobre os gays é, como a maioria de seus conceitos, reacionário. A pergunta é: por que ele não tem o direito de expressá-lo?
Bolsonaro nem sequer pregou a intolerância aos gays. Disse inclusive que eles são respeitados nas Forças Armadas. O que fez foi relacionar o homossexualismo aos “maus costumes”, dizendo que filhos com “boa educação” não se tornam gays. É um ponto de vista preconceituoso, além de tacanho, mas é o que ele pensa. Seria saudável que os gays, com seu humor crítico e habitualmente ferino, fossem proibidos de fustigar a truculência dos militares?
A entrevista também passou pelo tema das cotas raciais. Jair Bolsonaro declarou o seguinte: “Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um médico cotista”.
O conceito do deputado sobre os gays é reacionário. Mas por que ele não tem o direito de expressá-lo?
É a resposta de um reacionário, um dinossauro da direita, proscrito pelas modernas ideologias progressistas e abominado por sua lealdade ao regime militar. Mas é uma boa resposta. E agora?
Agora o Brasil bonzinho vai fazer o de sempre: passar ao largo do debate e choramingar contra a direita. Eis um caminho de risco zero. Processar Bolsonaro, o vilão de plantão, é vida fácil para os burocratas do humanismo. No reinado do filho do Brasil, até o nosso Delúbio, com a boca na botija do mensalão, gritou que aquilo era uma conspiração da direita contra o governo popular. O filão é inesgotável.
Cutucar o conservadorismo destrambelhado de Bolsonaro é atração garantida. Mas censurá-lo em seguida não fica bem. Parece até coisa dos antepassados políticos dele. A metralhadora giratória do capitão dispara absurdos, mas não está calibrada para fazer média com as minorias - e isso é raro hoje em dia.
De mais a mais, se manifestantes negros podem tentar barrar um bloco carnavalesco que homenageia Monteiro Lobato, por que um deputado de direita não pode ser contra o orgulho gay e as cotas raciais? Vai ver o preconceito também virou monopólio da esquerda.

sábado, 31 de março de 2018

O QUE FOI 31 DE MARÇO DE 1964

*O QUE FOI 31 DE MARÇO DE 1964*

Por Alexandre Garcia

Gostaria de dizer algumas coisas sobre o que aconteceu no dia 31/03/1964 e nos anos que se seguiram. Porque concluo, diante do que ouço de pessoas em quem confio intelectualmente, que há algo muito errado na forma como a história é contada. Nada tão absurdo, considerando as balelas que ouvimos... sobre o "descobrimento" do Brasil ou a forma como as pessoas fazem vistas grossas para as mortes e as torturas perpetradas pela Igreja Católica durante séculos. Mas, ainda assim, simplesmente não entendo como é possível que esse assunto seja tão parcial e levianamente abordado pelos que viveram aqueles tempos e, o que é pior, pelos que não viveram. Nenhuma pessoa dotada de mediano senso crítico vai negar que houve excessos por parte do Governo Militar. Nesta seara, os fatos falam por si e por mais que se tente vislumbrar certos aspectos sob um prisma eufemístico, tortura e morte são realidades que emergem de maneira inegável.
Ocorre que é preciso contextualizar as coisas. Porque analisar fatos extirpados do substrato histórico-cultural em meio ao qual eles foram forjados é um equívoco dialético (para os ignorantes) e uma desonestidade intelectual (para os que conhecem os ditames do raciocínio lógico). E o que se faz com relação aos Governos Militares do Brasil é justamente ignorar o contexto histórico e analisar seus atos conforme o contexto que melhor serve ao propósito de denegri-los.
Poucos lembram da Guerra Fria, por exemplo. De como o mundo era polarizado e de quão real era a possibilidade de uma investida comunista em território nacional. Basta lembrar de Jango e Jânio; da visita à China; da condecoração de Guevara, este, um assassino cuja empatia pessoal abafa sua natureza implacável diante dos inimigos.
Nada contra o Comunismo, diga-se de passagem, como filosofia. Mas creio que seja desnecessário tecer maiores comentários sobre o grau de autoritarismo e repressão vivido por aqueles que vivem sob este sistema. Porque algumas pessoas adoram Cuba, idolatram Guevara e celebram Chavez, até. Mas esquecem do rastro de sangue deixado por todos eles; esquecem as mazelas que afligem a todos os que ousam insurgir-se contra esse sistema tão "justo e igualitário". Tão belo e perfeito que milhares de retirantes aventuram-se todos os anos em balsas em meio a tempestades e tubarões na tentativa de conseguirem uma vida melhor.
A grande verdade é que o golpe ou revolução de 1964, chame como queira, talvez tenha livrado seus pais, avós, tios e até você mesmo e sua família de viver essa realidade. E digo talvez, porque jamais saberemos se isso, de fato, iria acontecer. Porém, na dúvida, respeito a todos os que não esperaram sentados para ver o Brasil virar uma Cuba.
Respeito, da mesma forma, quem pegou em armas para lutar contra o Governo Militar. Tendo a ver nobreza nos que renunciam ao conforto pessoal em nome de um ideal. Respeito, honestamente.Mas não respeito a forma como esses "guerreiros" tratam o conflito. E respeito menos ainda quem os trata como heróis e os militares como vilões. É uma simplificação que as pessoas costumam fazer. Fruto da forma dual como somos educados a raciocinar desde pequenos. Ainda assim, equivocada e preconceituosa.
Numa guerra não há heróis. Menos ainda quando ela é travada entre irmãos. E uma coisa que se aprende na caserna é respeitar o inimigo. Respeitar o inimigo não é deixar, por vezes, de puxar o gatilho. Respeitar o inimigo é separar o guerreiro do homem. É tratar com nobreza e fidalguia os que tentam te matar, tão logo a luta esteja acabada. É saber que as ações tomadas em um contexto de guerra não obedecem à ética do dia-a-dia. Elas obedecem a uma lógica excepcional; do estado de necessidade, da missão acima do indivíduo, do evitar o mal maior.
Os grandes chefes militares não permanecem inimigos a vida inteira. Mesmo os que se enfrentam em sangrentas batalhas. E normalmente se encontram após o conflito, trocando suas espadas como sinal de respeito. São vários os exemplos nesse sentido ao longo da história. Aconteceu na Guerra de Secessão, na Segunda Guerra Mundial, no Vietnã, para pegar exemplos mais conhecidos. A verdade é que existe entre os grandes Generais uma relação de admiração.
A esquerda brasileira, por outro lado, adora tratar os seus guerrilheiros como heróis. Guerreiros que pegaram em armas contra a opressão; que sequestraram, explodiram e mataram em nome do seu ideal. E aí eu pergunto: os crimes deles são menos importantes que os praticados pelos militares? O sangue dos soldados que tombaram é menos vermelho do que o dos guerrilheiros? Ações equivocadas de um lado desnaturam o caráter nebuloso das ações praticadas pelo outro? Penso que não. E vou além.A lei de Anistia é um perfeito exemplo da nobreza que me referi anteriormente. Porque o lado vencedor (sim, quem fica 20 anos no poder e sai porque quer, definitivamente é o lado vencedor) concedeu perdão amplo e irrestrito a todos os que participaram da luta armada. De lado a lado. Sem restrições. Como deve ser entre cavalheiros. E por pressão de Figueiredo, ressalto, desde já. Porque havia correntes pressionando por uma anistia mitigada.
Esse respeito, entretanto. Só existiu de um lado. Porque a esquerda, amargurada pela derrota e pela pequenez moral de seus líderes nada mais fez nos anos que se seguiram, do que pisar na memória de suas Forças Armadas. E assim seguem fazendo. Jogando na lama a honra dos que tombaram por este país nos campos de batalha. E contaminando a maneira de pensar daqueles que cresceram ouvindo as tolices ditas pelos nossos comunistas. Comunistas que amam Cuba e Fidel, mas que moram nas suas coberturas e dirigem seus carrões. Bem diferente dos nossos militares, diga-se de passagem.
Graças a eles, nossa juventude sente repulsa pela autoridade. Acha bonito jogar pedras na Polícia e acha que qualquer ato de disciplina encerra um viés repressivo e antilibertário. É uma total inversão de valores. O que explica, de qualquer forma, a maneira como tratamos os professores e os idosos no Brasil.Então, neste dia 31 de março, celebrarei aqueles que se levantaram contra o mal iminente. Celebrarei os que serviram à Pátria com honra e abnegação. Celebrarei os que honraram suas estrelas e divisas e não deixaram nosso país cair nas mãos da escória moral que, anos depois, o povo brasileiro resolveu por bem colocar no Poder.
Bem feito. Cada povo tem os políticos que merece.
Se você não gosta das Forças Armadas porque elas torturaram e mataram, então, seja, pelo menos, coerente. E passe a nutrir o mesmo dissabor pela corja que explodiu, sequestrou e justiçou, do outro lado.
Mas tenha certeza que, se um dia for necessário sacrificar a vida para defender nosso território e instituições, você só verá um desses lados ter honradez para fazê-lo.