sábado, 7 de fevereiro de 2015

O poder da vontade

Guerra é mais do que disputa por território, mais do que o desejo de eliminar o adversário, mais do que um instrumento de poder.
Guerras não se ganham com armas mais modernas, exércitos treinados ou estratégias bem elaboradas. Tudo  isso é essencial, mas a guerra requer mais do que isso.
A guerra nada mais é do que a expressão da vontade coletiva levada ao extremo da violência.
Homens que foram à guerra relataram que continuaram combatendo movidos pelo compromisso com seus companheiros. Matavam e morriam pela união de seu pequeno grupo.
Em nível mais elevado, a vontade coletiva motiva o povo a apoiar a guerra e suportar suas privações.
No plano moral, a guerra se entrelaça com a política.
Eis, então, outro cerne da questão ucraniana: a determinação dos russos em manter o conflito, numa vontade alicerçada mais na união da nacionalidade do que no temor dos mísseis da OTAN.
Putin prolonga a guerra para abafar a independência da Ucrânia; os russos a apoiam por compartilhar a nacionalidade com os separatistas, que são russos da periferia, mas russos, sim.
O centro de gravidade desse conflito não é Putin, mas a vontade do povo russo em apoiar os separatistas. Quebra-se essa vontade por meio de ações no plano moral e material. O envio de uma frota americana ao Mar Negro que eu tanto defendia um ano atrás apenas reforçaria a guerra. Os russos não temem o conflito, pelo contrário. Também não temem a pobreza ou a miséria, companheiras de tanto tempo. 
O apoio da Rússia aos separatistas diminuirá quando seu povo perceber que essa é uma guerra injusta e que não vale a pena de ser lutada.

A nova Rússia

O tempo prejudica a Rússia. Sua economia piora com o embargo e sua estatura política diminui com seu isolamento.
Se a Rússia e os russos perdem com a crise, porque Putin teima em prolongá-la?
Tentando responder a essa pergunta, primeiro pensei na analogia de Moscou, Caracas e Brasília, pobres capitais onde os governantes querem se manter no poder a todo custo, mesmo com a miséria de seu povo.
Mas, não é isso que explica a situação do tiranete russo. Putin não tem adversários no plano interno. Com a complacência  das democracias ocidentais, passou anos destruindo qualquer chance da Rússia ter ao menos um arremedo de governo democrático. Em resumo, seus motivos para manter o conflito não são de ordem eleitoral.
Putin consolida sua posição de czar de todas as Rússias montando uma rede de sustentação econômica. Privilegia  um grupo de oligarcas concedendo monopólios e favorecendo seus negócios. Tal como nos tempos do império, eles são os duques, condes e barões da economia, mafiosos travestidos de grandes empresários.  O comunista Putin vai construindo a nova nobreza russa.
Continuar enriquecendo no poder absoluto parece ser um bom motivo para Putin não exasperar-se em abreviar a crise, mas ainda não explica seus esforços em prolongá-la.
O motivo parece ser mais simples do que parece. Até agora, o conflito tirou muito mais da Ucrânia do que dos russos. Em resumo, é só isso.
A mesma Europa que preferiu ter no trono de Moscou um demônio conhecido, agora hesita em destroná-lo. Passou anos cortejando a Rússia, comprando seu gás, prestigiando os seus duques e seu czar. Afinal, a nova Rússia podia valer a pena, pelo seu imenso patrimônio material e pela capacidade de seu povo. 
O novo império oferecia sonhos de riqueza, mas Putin tem ido longe demais. Quer o poder absoluto dentro da Rússia e também no seu entorno. Mesmo para Europeus que herdaram o espírito político de Chamberlain, tal exigência é inaceitável.
Faz bem a OTAN armar os ucranianos. Se isso representa o risco de escalar o conflito, também pode ser o remédio para encerrá-lo. Putin buscará uma solução apenas quando lhe convier e é bom que passe a ter pressa em encontrá-la.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Paz por território



Há quem acredite na troca de território por paz no conflito da Ucrânia. Eu não.
Não creio que a Ucrânia possa obter paz oferecendo autonomia do Donbas ou uma redefinição da fronteira  com a Rússia.  O cerne da questão não é território; é independência, mesmo.
A Rússia teme o ingresso da Ucrânia à OTAN e o que isso representa para a sua segurança.
O conflito se prolonga. Ruim para Kiev, ruim para Moscou, mas talvez não tão ruim assim para a Europa Ocidental, que vê a economia e a capacidade militar russa se corroendo. A Rússia vai perdendo sua capacidade de influência e pressão; o que abre espaço para o crescimento de outros atores no cenário internacional.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Alfajor de dulce de leche

Nem só de conspiração vive o homem. E nem a mulher. A presidenta dos hermanos também tem uma veia de humorista. Vale conferir em

http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2015/02/argentina-china-eles-so-quelem-complar.html?m=1

Ela, além de ser um doce de coco, un alfajor de dulce de leche, também é engraçadíssima.

Argentinos

Faz pouco tempo que voltei de uma pequena temporada em Buenos Aires. Passei uns dias de verão realmente quentes por lá e, no Shopping Abasto da Av Corrientes, experimentei o McDonalds Kosher. Nada demais. Escolhi o lugar porque a fila era menor, mas pude perceber como é numerosa  a comunidade judia daquele país portenho.
Pela minha convivência com os nativos, também percebi uma forte atração dos argentinos pelo mesticismo, pelo inexplicável, pelo mistério. Ora, convenhamos que não há mesmo muita racionalidade no culto a Evita e ao Maradona, nem na extensa disseminação de astrólogos, cartomantes, e psicólogos na capital dos hermanos. Eles estão na pior. Menos mal que o papa é argentino, mas a carestia come o poder de compra do cidadão comum que vive com dificuldade.
É claro que minhas percepções podem estar completamente furadas, mas elas se encaixam direitinho na absurda conspiração que ronda a morte do promotor.
O fato foi estranhíssimo. Ele passou anos investigando para morrer justo na véspera do grande dia em que apresentaria sua acusação contra a dirigente maior daquele país. Eis uma história difícil de acreditar, digna de um romance com ingredientes sobrenaturais ou recheado de hipóteses absurdas, tal como, só para citar um bem famoso, o Código da Vinci.
Até agora, há duas vítimas nesse caso: o promotor e o Serviço de Inteligência. Ah, sim, tem uma terceira vítima que eu ia esquecendo: a verdade.
Não sei quem puxou o gatilho da arma, se foi um espião argentino, o próprio promotor ou um tenebroso agente da Iluminati, mas é mesmo muito plausível a hipótese do acobertamento dos autores do atentado terrorista de 1994 em troca de vantagens comerciais.
Para finalizar, esse caso tem todos os ingredientes de uma emocionante história de ficção. Pena que a realidade seja tão dura para aqueles nossos rivais no futebol que teimam em escolher mal seus governantes.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Oposição fraterna

Excelente texto do Fernando Schuler.
Guardo para a posteridade

O terror tem seus opositores fraternos. Eles vivem em Paris, lecionam em boas universidades norte-americanas, publicam em nossas melhores editoras. Estão por aí. Diante do horror e da barbárie, não perdem a chance de relativizar.  Foi o que se viu, mais uma vez, no debate que se seguiu ao massacre do Charlie Hebdo, em Paris.

Opositores fraternos, por óbvio, registram sua repulsa pelo acontecido. Solidarizam-se com as vítimas e dizem que os irmãos Kouachi, apesar de tudo, fizeram uma coisa errada. Sua crítica se concentra no método. Eles tinham, vá lá, suas razões. A revista, de fato, passou do limite. Os EUA, como explicou o escritor Tariq Ali, invadiu o Iraque, em 2003, e aqueles meninos assistiram a tudo pela televisão. Viram imagens das torturas na prisão de Abu Ghraib. Estavam com raiva. Mas agiram errado, apesar de tudo.

Opositores fraternos não pertencem exclusivamente a esta ou aquela ideologia. Eles podem ser encontrados entre um certo de tipo de conservadorismo estúpido, relativamente abundante nas redes sociais, para quem não se deve brincar com a religião alheia. "Ódio gera ódio", li em um post na internet, sugestivamente feito por um professor de filosofia de uma universidade federal.

Seu mais emblemático representante talvez seja Jean-Marie Le Pen, que nos dias que se seguiram ao massacre acusava a revista de blasfêmia e vulgaridade, e bradava, orgulhoso, "eu não sou Charlie".

A artilharia mais pesada da oposição fraterna veio, não obstante, do chamado campo de esquerda. Mesmo que fosse previsível que isto acontecesse, confesso que me surpreendi com a forma mais ou menos explícita de seu discurso  compreensivo em relação ao terror. No uso explícito da tragédia para atacar seus inimigos na disputa política. Na fixação em enquadrar qualquer coisa na conversa de esquerda x direita. O terrorismo encontra sua audiência no Ocidente.

A argumentação usada por essa turma é relativamente uniforme. A estratégia é enquadrar o massacre em um quadro mais amplo, que envolve a guerra ao terror, no pós-11 de setembro, a opressão aos imigrantes, a política de Israel, o passado colonizador europeu, a crise (sempre ela) do capitalismo. Um conjunto mais ou menos previsível de razões que, devidamente ordenadas, produzem uma sutil inversão da culpa pelo acontecido. Ela passa a ser sistêmica. O radicalismo islâmico torna-se um ator secundário. O Ocidente opressor, tendo à frente seu vilão habitual, os EUA, passa a ocupar o banco dos réus. 

Opositores fraternos

Tariq Ali publicou um artigo na Folha de São Paulo intitulado "Guerra entre Fundamentalismos". O que testemunhamos, diz ele, "é um conflito entre fundamentalismos rivais, cada um mascarado por diferentes ideologias". Tentei descobrir, no artigo, em que consistia exatamente o fundamentalismo rival dos terroristas, mas não consegui.

Ele menciona certas restrições francesas a piadas antissemitas, o uso de tortura na guerra ao terror, as ações militares francesas na Síria, a direita francesa e coisas assim. Para Tariq Ali, misturando tudo, o Ocidente se equivale ao terrorismo islâmico. Ele não consegue perceber muita diferença. Se vivesse em Cabul, à época do Taleban, ou em Teerã, ao invés de Londres, talvez conseguisse. Mas não o faz, ao menos até o final do artigo.

O discurso se parece com o argumento segundo o qual a frente nacional e o fascismo islâmico são da mesma seara. Argumento de mau gosto, visto utilizar uma frase de Charb, diretor de redação da Charlie Hebdo, evidentemente retirada de contexto. Não passa de um exercício de leviandade intelectual comparar um massacre terrorista com a ação política de um partido legalmente constituído.

Reuters TV/Reuters
Irmãos Kouachi, após ataque ao Charlie Hebdo

Um partido do qual pode-se (com razão) não gostar, mas perfeitamente legítimo e incorporado à democracia francesa. Espécie de falácia da equivalência comum no dia a dia das discussões políticas (não houve quem chamasse o adversário de "nazista", em nossa última campanha eleitoral?). O que me surpreende é que o truque seja usado por intelectuais com algum preparo. Talvez o façam por imaginar que serão lidos apenas por leitores do devidamente alinhados. Em parte, é isso mesmo que acontece.

É o caso de Noam Chomsky. Em um entrevista à revista digital Raw Story, ele produziu sua versão particular da "falácia da equivalência": comparou o massacre, entre outros episódios, com a morte de 50 civis decorrentes de ações do exército norte-americano na Síria. Confesso que li várias vezes para me certificar que era isso mesmo que ele dizia.

Chomsky está dizendo que, de um modo geral, os irmãos Kouachi equivalem-se a Barack Obama. Com alguma vantagem para os primeiros, pensei eu. Ao menos tiveram a coragem de fazer pessoalmente o serviço, ao invés de enviar os seus homens. Chomsky dá de ombros para o fato de que o exército americano é uma força regular, que integra uma coalizão internacional, em ação contra um grupo genocida. E cujo foco não é punir infiéis nem produzir a morte de civis.

Na lista dos opositores fraternos não poderia faltar, por óbvio, o filósofo Zlavoj Zizek. Em um artigo na revista New Statesman, Zizek define o fundamentalismo como uma "reação contra uma falha real do liberalismo". Por isso ele seria "repetidamente gerado pelo liberalismo". Sociedades liberais presumivelmente tem muitas falhas, e fiquei imaginando qual delas teria produzido o fundamentalismo.

Zizek não explica, mas parece oferecer uma pista quando diz que a permissividade liberal e o fundamentalismo são dois polos gerando e pressupondo um ao outro. Para ele, não são sociedades teocráticas ou seitas radicais, seja no Irã, no Paquistão ou na Arábia Saudita que produzem o fundamentalismo. Precisamente sociedades que não atravessaram processos de secularização e modernização liberal. Nada disso. Merecemos nós as chicotadas. A democracia liberal e sua maldita sociedade de direitos.

Zizek busca inspiração em um frase de Horkheimer sobre fascismo, nos anos 30, para concluir que "quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal, deve também ficar quieto com respeito ao fundamentalismo religioso".

Parece esquecer o óbvio: Horkheimer se referia a um fenômeno (o fascismo) produzido no coração do mundo europeu. O que obviamente não é caso do fundamentalismo islâmico. Além da analogia apressada, o nonsense: era exatamente a favor, e não contra, a democracia liberal e seus valores que marchou a multidão, em Paris, seguindo o presidente Hollande. É a crença na liberdade que deve se fazer ouvir, ao invés de se calar.

Zizek parece dizer que só uma alternativa ao capitalismo poderá resolver o problema do terrorismo. O que não deixa de ser curioso, visto que todos os sistemas que se propuseram esta tarefa se tornaram, sem exceção, eles mesmos formas de terrorismo de Estado. Mas isto é só um detalhe. O papel aceita tudo.

  • O texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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FERNANDO SCHULER

é doutor em Filosofia e mestre em Ciências Políticas, com pós-doutorado pela Universidade de Columbia, e professor do Insper


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Eu e o João Grilo

O Estado Islâmico executou dois reféns japoneses que cometeram o pecado de serem capturados no lugar errado. Há alguns recados implícitos na execução.
O primeiro é que a carteirinha PRESS não alivia ninguém.
Depois, que não interessa a nacionalidade do refém. Sangue é sangue e eles cortam a garganta de qualquer um.
O terceiro recado é que o Estado Islâmico pode ser islâmico, mas não é Estado. Não respeita as regras de convivência do Sistema Internacional e é, sim, uma organização terrorista. É um erro crasso pensar que eles vão dialogar.
O último recado é a conclusão. Todos, até mesmo o Brasil, podem ser alvo de atentados terroristas do Estado Islâmico. 
Para combatê-los é preciso entender o que eles pensam e o que querem. Tem gente mais inteligente do que eu que pesquisa e escreve sobre o assunto.
Eu e o João Grilo quase nada sabemos sobre terrorismo; só sabemos que é assim que ele funciona.